Nada cresce

Memória muscular guia pelas ruas da cidade. Mesmo que não saiba mais os nomes, sabe ainda os caminhos. Mesmo que não reconheça os rostos, sabe das vidas. Passam casas e praças e bares. O fantasma da juventude não tão distante paira sobre a água do rio e sobre o pico da montanha, espreita em becos escuros, flutua acima da copa dos oitis - uma mão aberta, outra cerrada - o sussurro de um sorriso indeciso no rosto, no peito, a vergonha de todos os erros, em exibição constante para quem quiser ver.

“pneus cantam, o metal retorce e pessoas desaparecem. vivas ou mortas, todas enterradas. o sol se levanta pela janela do quarto nos fundos, inutiliza a cama. roupas dispostas em cima de uma cadeira. malas vazias, corações pesados. um copo com água esquecido ao lado de um cigarro ainda aceso queimando sozinho na cozinha na madrugada. abraços vazios, mãos que apertam a si mesmas. o gosto amargo da boca dos outros.”

A cidade é outra, a bebida a mesma, e nos bares as conversas não mudam, velhas histórias reverberam pelas paredes até morrerem sob as rodas de um carro qualquer guiado rápido demais por alguém nem diferente nem igual a todo o resto. O brindar de copos, os olhares furtivos para as coxas das mulheres, às vezes novas demais, às vezes não. Nenhum nada que faça o coração bater. O fantasma da juventude agora pouco mais distante paira nos balcões e mesas e murmura palavras ininteligíveis de salvação, mãos abertas, o peito sangrando com a marca ainda recente de unhas e dentes.

“notícias ruins por telefone, cada toque, falha no coração uma batida de coração. as emboscadas da vida. as armadilhas da velhice aguardam de molas armadas e com dentes afiados. dedos ansiosos reviram cinzas, procurando. faróis acendem, imitação de realidade, espantados, sonho e noite. em toda calçada, esquina qualquer, lixo cresce e vento sopra o que resta. ratos disputam migalhas com sangue nos olhos.”

Um mar de bocas, pés, mãos, braços, cabeças. A música alta demais, a luz que oscila interrompe, ainda que brevemente, o benefício ignorado do silêncio aos olhos. Pessoas que, aos berros, se exibem no mesmo esconderijo super exposto de sempre. Na graça inexistente, na classe ausente está a impossibilidade dos corpos, e os copos circulam e as vozes aumentam. Olhos e mãos se confundem em suas funções e a vergonha é vendida e afogada em garrafas, agora vazias, lançadas ao chão e despedaçadas. O fantasma da juventude para sempre esquecida vaga por entre corpos e copos, paredes e portas, de mãos para trás, vê por olhos cansados, pensa pensamentos pesados, não oferece e não exige coisa alguma. No peito, o velho lobo negro chamado Nada.

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    A whale stranded on a mountain.

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