Roar

Essa é a vida que eu vivo e poucas são as coisas me fazem feliz.
“Vento que sopra pela janela na noite quente de verão iluminada pela Lua. Rua deserta, às vezes molhada pela chuva, às vezes não. O som do mar. O cheiro da árvore de quando eu era criança. A certeza do amor (apesar da incerteza do resto). Alguns amigos. Música. Silêncio. Companhia. Solidão.”
Desde minha ilha observo outras ilhas - e seus habitantes. Suas luzes que brilham, suas vidas lentamente vividas e perturbadas pela insignificância que secretamente abraçam e tratam docemente, carregam perto do coração, alimentam como animal de estimação que dorme em suas camas, sob suas cobertas, dentro de seus peitos, aquecida por seus pijamas e ambições -natimortas.
Ilhas separadas por profundidades, aproximando-se, lentidão continental, cercadas por águas turvas de mistérios. Erguem-se e ruem pontes em cerimônias ruidosas e, ao fim, recolhem-se na escuridão, acendendo luzes artificiais para sinalizarem que estão lá. Que existem.
Que labuta: existir!
“Dirigir até o fim da cidade, além da linha de trem. Na estrada, à noite, apagar os faróis. Lembrar de ver, nos campos que zuniam na escuridão, vaga-lumes. Numa reta, fechar os olhos por alguns segundos, deslocando-se muito, muito rápido. Ver as luzes alaranjadas dos postes no outro extremo da cidade refletidos no asfalto chovido. Muitas vezes com amigos. Muitas vezes sozinho. Rituais de despedida. O abrir de mãos. Amigos vivos. Amigos mortos. Amigos que nunca viveram.”
Ilha, existo em lembranças, onde sou livre para fantasiar e atuar a grande peça de uma vida toda para a platéia minúscula de um homem só. “Que talento. Que desperdício.” - Ah, se vocês apenas soubessem...
Fito furos na parede, penteando com os dedos os pêlos que crescem de meu rosto. Trago estampado no peito a marca do fracasso mais espetacular de todos e nada da cintura pra baixo.
Li viver é desenhar sem borracha. Minha vida desenho com os dedos dos pés numa areia qualquer constantemente lavada por ondas. Li fôrma sem forma, sombra sem cor, força paralisada, gesto sem vigor. Uma música ecoa em meu crânio vazio, crânio empalhado. Guitarra que ruge subsônica, tambor que rufa o fim do Tempo e mais uma vez me lembro do poeta dizer que assim expira o mundo, não com uma explosão, mas com um suspiro.
Manco, apoiado em ombros fortes.
“Adeus. Até mais. Solo maldito. Sol escaldante. Ar sufocante. Gente gente. Um quarto azul e amplo construído por mentiras e desequilíbrio. Meu trigésimo ano rumo ao céu. […] a verdadeira alegria da criança há tanto tempo morta cantava […]. Realizações nas madrugadas. Aventuras à margem do rio. Ao pé da montanha. Uma foto. Uma música. Esses eram os bosques e o rio e o mar ali onde um menino à escuta do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase. Verdade só há enquanto criança.”
O Pássaro canta equivocado, anuncia um amanhecer que não virá. O disco gira no fim. Silêncio e dois cliques. Os furos continuam na parede, simétricos. Os pêlos imperceptivelmente maiores em meu rosto. O resto, igual.
Ilhas, escuridão e calor, cimento e luzes e almas artificiais.