Sábado branco

No sábado branco o céu queima linhas nos olhos enquanto deito sem roupa em minha cama e pondero sobre a possibilidade de vidas em outros lugares. Duas notas se repetem e ecoam em meu quarto, preenchem o vazio, escorraçam o silêncio feito um câncer.
No sábado branco tudo permanece imóvel. Os móveis acumulam poeira, o cimento cinza dos prédios contra o céu monocromático erode paulatinamente e a natureza briga - e perde - para o calçamento na rua. Roupas dobradas no armário, o martelo deixado no chão, a luz de uma lâmpada acesa durante o dia. Vestígios de uma cidade fantasma, porém habitada. O gato branco se apoia contra a tela na janela ouvindo o canto de um pássaro precisamente fora de seu alcance.
“Tempo, passado, e mais tempo, e depois um momento…”
Páginas de um livro amarelam, a pele do rosto enruga. Segundos valiosos e insignificantes escoam pela fenda no céu. A agulha do toca discos esquecido repete ao infinito a estática da reprodução do silêncio artificial enquanto olhos encaram o papel branco.
Um telefone toca sem resposta até que em algum lugar um movimento involuntário devolve vida ao mundo, que chora como bebê nascido. No decurso do piscar de dois olhos, no correr de sangue numa veia, no brotar da primeira gota vermelha no buraco na carne.
O constante simultâneo infindável inevitável fim e recomeço do que vive e morre. Marcas de dedos sujos em paredes rachadas.