A ignorância adolescente talvez tenha me salvado de ser um babaca.

Houve um tempo na minha adolescência que eu praticava do ritual de assistir programas como “Cidade Alerta”, entre outros programas do gênero que passavam no final da tarde, em que praticamente tudo o que acontecia era uma desgraça em vários pontos diferentes da região metropolitana de São Paulo. Coisas como chacinas, estupros, violência constante, e coisas bárbaras que me deixavam com medo de sair na rua. Aquilo consumia um pouco do meu psicológico adoslescente e cheio de energia. De alguma forma eu consegui me desvencilhar desse tipo de programação, e até mesmo da TV aberta.

Passado o tempo comecei a usar as redes sociais como forma de consumir um conteúdo mais direcionado ao meu interesse, talvez também como uma forma de fugir um pouco dessa realidade bizarra que querendo ou não continuava acontecendo fora da TV. Então comecei a acompanhar o conteúdo que me interessava, e ao mesmo tempo ignorando de forma inconsciente a realidade, e apenas no máximo comentando de forma sucinta sobre alguma mãe de família brutalizada na zona leste, mas nada muito profundo, o meu interesse era outro. Após algum tempo esse conteúdo indesejável, que soava pra mim como um spam macabro, começou a reaparecer dentro de redes sociais, só que talvez dez vezes pior que na TV aberta, consideranto que o conteúdo compartilhado é muitas vezes autoral e quase simultâneo. Era algo muito mais impactante, e à partir daí, novamente isso tudo começou a fazer parte da minha rotina mais uma vez.

Eu nunca quis fingir que essa realidade nunca existisse, mas uma vez que você é um adolescente, todos os fatos são como uma doença evitável, e com certeza eu iria evitar. Provavelmente aquele não era o melhor momento para interagir com essa realidade, e hoje com mais maturidade (talvez nem tanto como deveria), notei que isso faz, e deve fazer parte da minha rotina por mais que as coisas sejam horríveis e eu não queira fazer parte. É difícil de pensar, porém é essencial para a vivência em sociedade, e que eu tenha muitas vezes presenciar o que acontece, e ai então refletir, questionar, discutir, e ai então tentar solucionar essas questões como um indivíduo. Afinal é assim que o mundo se movimenta, meio baguçado, mas é assim.

Talvez a maior reflexão dessa minha transição, é que por mais óbvio que seja, o problema nunca foi a TV. Enquanto eu me enganava achando que a ausência dela iria solucionar todos aqueles momentos medonhos, ela estava ali se recriando dentro do meu bolso, 24 horas por dia.

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