É (era) o Hotel Cambride: onde a ficção se torna realidade

“QUEM NÃO LUTA ESTÁ MORTO!” — grito da Frente de Luta por Moradia (FLM) e Movimento de Sem-Teto do Centro (MSTC ) ao entrar nos imóveis desocupados no centro de São Paulo

Cartaz do longa-metragem/ Foto: Lorena Alves

Quem são as pessoas que moram nas ocupações no centro de São Paulo? Para produzir o longa-metragem Era o Hotel Cambridge — lançado mundialmente em outubro de 2016 — foram necessários três anos de convivência de Eliane Caffé, diretora do filme, com a Ocupação que recebe o mesmo nome. O filme tem como destaque a resistência dos moradores, movimentos sociais e a brutalidade que os mesmos enfrentam por parte do Estado. Rodado em três semanas, trata-se de uma mistura de ficção e realidade, retratando o cotidiano de sem-tetos brasileiros, imigrantes e refugiados no Hotel Cambridge, que faz parte da FLM — Frente de Luta por Moradia.

Imagem marcante durante todo o longa-metragem: as escadas do Hotel Cambridge/ Foto: Bianca Vendramini

O prédio do Hotel Cambridge fechou as portas em 2004. Após oito anos sem cumprir função social e abandono, o MSTC — Movimento Sem Teto do Centro — ocupou o edifício, em 23 de novembro de 2012. A prefeitura comprou o prédio, desapropriou, mas este continuou abandonado. Nosso trabalho é focado na Ocupação 9 de Julho, que surgiu como um braço da ocupação do Hotel, localizadas uma perto da outra.

No início, o objetivo da diretora era produzir um filme sobre como as famílias refugiadas estavam chegando ao Brasil. Quando a equipe de direção começou a entrar em contato com as histórias de dentro das ocupações, a produção sofreu modificações. “Produzimos esse filme em zona de conflito, conseguimos desmitificar inúmeros preconceitos”, ressalta a diretora, em entrevista à TVT. Elaine Caffé ainda destaca: “Esse filme mostra o valor de transformação que têm os movimentos sociais, o quanto ele é transformador e a potência do discurso lúdico da propriedade da arte. Juntamos dois pólos: a arte e a política”. O longa-metragem se modificou muito ao longo da vivência dela com as 200 famílias de moradores sem-teto neste edifício no centro de São Paulo. Atualmente, a diretora se considera militante da causa.

Dona Carmen/ Foto: Bruna Habiro

“O filme é um instrumento de referência porque passa a mostrar quem somos nós”, diz Dona Carmen, liderança da Frente de Lutas por Moradia — composta por mais de 5.000 famílias. Em entrevista à TVT, ela pontuou fatores importantes do movimento: “Somos cidadãos em busca de um bem que é direito, e não privilégio. É como me ver por dentro. Na tela de cinema ocorre um sobressalto, como a nossa luta é importante, é uma Carmen sem máscara

O movimento social é muito criminalizado, e é comum que haja desconfiança quando surgem propostas de filmagens ou projetos envolvendo as ocupações. Além da resistência, é necessária a segurança, já que por parte do Estado ela não existe. Na sala de cinema no Itaú Cultural, na Rua Augusta, em São Paulo, nós, enquanto grupo, discutíamos o que iríamos abordar nessas linhas, vídeos e imagens que aqui apresentamos. Um filme de impacto para quem não conhece os movimentos de luta por moradia, e também para quem acompanha. A tela dos cinemas nos deu outra dimensão do que realmente acontece no Centro de São Paulo. Até para os que vivem todo esse dinamismo diário, as reuniões, os atos, as tarefas e envolvimento de uma ocupação. Virar protagonistas mundialmente de suas próprias vidas foi uma surpresa e lembrança que eles levarão para sempre. Foi gratificante e surpreendente para muitos dos moradores, que assistiram a um filme pela primeira vez. Não era qualquer longa-metragem, mas sim um filme que finalmente os representa.

Outro fator muito bem ilustrado é a preocupação de ter reintegração de posse. “A luta é com vocês, é hora da gente estar unido, não podemos desistir nessa hora”, diz Dona Carmen, em assembleia na ocupação, antes de ocuparem um dos prédios no Centro de São Paulo. A força dos militantes é passada dos pais para as crianças, que em nossas conversas durante esses dias de experiência na ocupação 9 de Julho nos mostraram extrema sabedoria e organização nas atividades necessárias para o funcionamento diário do local onde moram.

Crianças da Ocupação 9 de Julho/ Foto: Lorena Alves

A questão dos refugiados também é destacada no filme e nos preocupa. Como na cena em que um dos refugiados do Congo diz: “Eu com 13 anos fugi na roda de um avião”. É clara a falta de política pública aos refugiados no nosso país e o acesso a nossa cidade. Eles vivem uma luta, além daquela por moradia, mas também pelo direito à cidade

Crianças da Ocupação 9 de Julho/ Foto: Lorena Alves

Os organizadores do movimento social, assim como as famílias, nos receberam muito bem, e é muito gratificante ver essa troca, entre estar compartilhando histórias legítimas de luta e o aprendizado que cada vivência nos proporcionou. Ver a liderança de Dona Carmen é pensar que o século XX foi marcado pelos homens na luta frente às fábricas, e o século XXI está mostrando que as mulheres estarão à frente dos movimentos políticos e sociais. Dona Carmen é um símbolo de força para as 200 famílias da ocupação.

“Ocupação não é imobiliária”, como nos disse a própria líder da Frente de Luta por Moradia. No longa-metragem de Eliane Caffé, há poucos atores além dos moradores que fazem seu próprio papel, mas, por não ser uma realidade que os meios de comunicação mostram, as cenas causam estranhamento. O filme retrata os traços de quem ocupa mesclados com a preocupação de cada indivíduo que compõe a luta, os motivos de uma ocupação e como mantê-la. O telespectador facilmente acha que a trama é uma ficção, porém os moradores estão sendo eles mesmos. É nítido que vivem o filme quando, por exemplo, cumprimentamos a responsável pelo Brechó, localizado dentro do Hotel Cambrigde, e nos vemos transportadas ao filme, tal como foi com a recepção dos organizadores e moradores da ocupação.

Crianças da Ocupação Hotel Cambridge em sua área de lazer/ Foto: Lorena Alves

Quem não luta está morto! As crianças, nossas protagonistas, têm papel primordial na luta, pois caminham para fazer a diferença de transformação social em todos os espaços ocupados, sem perder a leveza de ser criança.