Olhar materno

Mãe angolana cria seus filhos na Ocupação 9 de Julho

Entre as diversas famílias que moram na Ocupação 9 de julho, há aquelas que vieram de muito longe a procura de um abrigo no centro de São Paulo. Assim aconteceu com Bibicha, uma angolana que, em 2016, veio para o Brasil com o filho de oito anos, Ernesto, e outro no ventre.

Em março desse ano, Bibicha saiu da Angola com o objetivo de garantir um futuro melhor para seus filhos. “Estava grávida e na gravidez anterior tive problemas: eram gêmeos e somente um sobreviveu. Queria uma chance melhor para o meu novo bebê”, conta a angolana. Impulsionada pelo seu chefe no hotel que trabalhava na Angola, o qual é brasileiro, resolveu escolher São Paulo como seu destino.

Ao chegar à grande metrópole brasileira, Bibicha e sua família ficaram hospedados em um albergue na região do Bom Retiro. “Me surpreendi com o albergue, nunca tinha visto tanta gente em um mesmo lugar, várias camas uma ao lado da outra”, relata angolana. Ela ainda conta que Ernesto não se sentia muito bem, pois não podia brincar e rejeitava a comida que era servida. Adicionalmente a má experiência, o prazo de estadia no albergue se aproximava e, então, a angolana resolveu procurar um novo lugar para morar.

Visão de entrada da Ocupação 9 de Julho/ Foto: Bianca Vendramini

Dessa maneira, chegou à Ocupação 9 de Julho, onde mora há mais de um mês, com seu filho e sua recém nascida, sendo bem recebida pelos outros moradores e por Dona Carmen, coordenadora geral do movimento MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) e uma das lideranças da FLM (Frente de Luta por Moradia) — a qual a Ocupação Hotel Cambridge e suas extensões são subjugadas.“Por mim, eu continuo aqui (…). Aqui temos certa segurança, nada vai acontecer de repente. Se a polícia for aparecer, ela [Dona Carmen] avisa. Nas outras ocupações não é assim, a comida nem sempre é boa. Aqui meus filhos comem à vontade, dormem bem e brincam a hora que quiserem”, diz Bibicha.

Pelo olhar da mãe, Ernesto parece ter se adaptado muito bem ao Brasil: brinca com as crianças da Ocupação, come bem e vai à escola. A angolana conta que ele não tem grandes dificuldades em relação aos estudos, principalmente porque o sistema escolar é parecido com o de seu país natal e a língua falada é a mesma. O que ele mais estranha, diz ela, é que a maioria de seus colegas da escola são brancos, diferente da realidade encontrada na Angola.

Ao ser questionada sobre a maior dificuldade de seu filho, Bibicha revela que é a saudade do pai: seu marido não conseguiu acompanhá-la na vinda para São Paulo e agora organiza os documentos para conseguir reencontrar a família. “Muitas vezes ele quer voltar por ter saudades do pai, mas eu explico que a educação, a saúde e a qualidade de vida aqui são muito melhores”, relata a mãe.

Mesmo com as incertezas que cercam o cotidiano dessa família angolana, Bibicha não deixa de sonhar: “Quero recuperar meu gêmeo, e eu vou!”, diz a respeito de uma nova gravidez. A força e a esperança que ocupam a mente dessa mãe são maiores do que qualquer dúvida em relação ao local que, hoje, pode chamar de lar.