eu não estou preparada pra escrever.

na verdade, eu mal consigo pensar as palavras antes de colocar o lápis no papel.

aposto que vários manuais de escrita e conselheiros ficariam boquiabertos, mas é assim que funciono. funcionando ou não.

a complexidade do ser humano me encanta de uma maneira que iniciei esse rascunho falando algo completamente distinto do que quero dizer.

(veja bem, tudo isso faz parte do processo de desvelamento de subjetividade que a escrita nos traz)

eu, você, sua amiga, sua avó, sua namorada, sua professora, a moça que te entregou panfleto na rua e você ignorou, a moça que te atendeu com cara de cansada (forçando a simpatia) naquela loja qualquer, a garçonete com a qual você foi grosseiro/a, aquela atriz ou cantora que te move a fazer parte de um fandom e torcer pelo sucesso dela mais que pelo seu próprio, a mulher carcerária, grávida e abandonada pela família, presa por porte de drogas em uma prisão superlotada, a mulher negra escravizada há 200 anos atrás, a mulher lésbica que é assassinada, a criança que acaba de aprender a transcrever seu nome, a adolescente que vai pra Disney e a que trabalha pra ajudar dentro de casa.

essas são algumas combinações dentro da gama de maneiras e possibilidades de viver e morrer nossos poucos anos no planeta Terra.

não quero soar moralista, mas é aterrorizador a nossa capacidade de destruir nossas vidas e as dos outros e achar que está tudo bem.

a complexidade do ser humanos é algo que me encanta,

podemos ser vários em um, um pouco de cada coisa, de cada coisa um pouco, um amontoado de sutileza, de arte, de talento, de beleza.

somos confusão e multiplicidade, ambíguos e hipócritas, carentes e prepotentes, doídos e algozes

quem poderia ser um salvador da pátria nessas condições?

todas as nossas formas de experiência e criação são tão ricas e válidas, cheias de memória, de uma subjetividade formada por anos de tropeços, alegrias, tristezas profundas, conselhos, leituras, cinema, amizades, solidão, choro e sorriso. relações de afeto e desafeto, cada ser tocando o outro, uma inter-construção e destruição.

estou só romantizando? talvez.

nem percebemos, não atentamos

estamos-correndo-com-pressa-demais-estressados-demais-ansiosos-demais-cansados-demais-decepcionados-demais-com-raiva-demais-presos-demais

como parar pra sentir, pra apreciar, pra meditar, pra reconhecer erros, pra reparar o outro ou a coisa, pra criar novas perspectivas ou esperanças?

como se preparar para escrever?

talvez em outro texto eu diga o que realmente queria dizer.