Gardener and the centre of the universe — Jana Brike

o sufoco de te ter e não ter encanta e corrói

é bonito de ver, se você parar pra sentir

mas se demoras muito contemplando, logo será tomado pelo medo que me transborda

é suor a melhor metáfora pra falar de ti, ainda que você goste de enxotá-lo com banhos regulares.

tu atravessa a carne sem pedir licença, escorre e transgride minha pele para logo em seguida repousar nela com toda tua ternura

desliza sobre tudo que eu entendo que sou e acaricia com unhas afiadas esse meu coraçãozinho

que pulsa descontroladamente quando te avista que até acho sinal de que se pudesse rasgava minha arquitetura pra ir ao encontro do teu e assim morar no quentinho do seu colo.

umidifica minha superfície que feito papel se amolece e fica à tua mercê como doação

me desfaço e refaço a cada bocejar - cansado e atrasado - pela manhã e tu é o motivo das minhas (re)construções mais bonitas

minha paz (sobrenome) encontra a tua (sensação), que emana do teu caos visceral mas só quem chega de pertinho consegue ver

meu denguinho, você é constelação em complexidade e beleza tanta que quero transfigurar a mim astronauta pra te explorar e navegar

deixa eu dançar seu corpo leve conduzido pelo encaixe no meu, pele-com-pele curva-com-curva, minha mão firme sustentada pelo teu olho achando segurança no meu.

seremos contato, ato, flores de quintal d’uma senhorinha cuidadosa, fluxo incontrolável de intensidade e calmaria, sinestesia do bem e do mal, transgressão e criação, seremos casa mas nunca o chão

é gostoso te ver livre, menina, e daqui é tão bom te fotografar com meu olhar já pequeno do tanto que sorri por e pra ti

o prazer e sentimento fundem-se no suor que me cobre e me faz sentir o vento mais gelado, anunciando tua chegada iminente ou tua condenatória partida para um abraço que te acolha melhor que o meu.