Em tempos de “estudo dos millennials”, onde todo mundo tem algo a dizer sobre essa geração tão odiada/amada/incógnita, às vezes sinto necessidade de entender, sem julgamentos, mais sobre as causas e origens comportamentais. De onde surgiu esse tipo de ser humano com hábitos tão discrepantes de seus antecedentes?
Particularmente, gosto do paralelo entre “gerações” e “versões de software”: não se lança a versão 1 e logo depois a 2. Muito semelhante a matemática que se aprende na escola, antes de chegar ao 2 tem um infinito de possibilidades: 1,13, 1,256, 1,3124… Em tantos casos mais complexos, existem releases de programas versionados em 1.2.11.024a, porque não dá pra sair de um rascunho e ir direto para a arte final, é preciso estressar as possibilidades e fazer melhorias homeopáticas enquanto testamos se estas são de fato melhorias ou anomalias que não se justificam.
“They come from a much older version of the Matrix, but like so many back then they caused more problems than they solved.”
(Persephone sobre outras versões de pessoas, Matrix Reloaded)
Então mais do que simplesmente mudar, as gerações evoluem baseado no que a geração anterior germinou no mundo. Vivemos experiências projetadas por pessoas que conhecem outra realidade e acreditam que estão criando uma melhor para o futuro. Em loop.
Dito isto, voltemos a 2006 — quando eu me recordo de usar diariamente o MSN Messenger como apetrecho mais eficiente de se comunicar na epoca. Mesmo já havendo MIRC, ICQ e chat da UOL para o mesmo fim, o MSN tinha uma série de funcionalidades customizadas (emoticons animados, status coloridos, opções de fonte, etc) que davam o máximo de personalidade ao que quer que você escrevesse. Era fácil se expressar com tantos recursos.
O que nunca foi nada fácil era lidar com o excesso de informação mental que precisava ser digerida — e não me refiro apenas aos textos enviados e recebidos, mas às emoções que cada gatilho desencadeia do lado de cá da tela.
Se por um lado havia um escudo chamado “distância física” entre os participantes das conversas, por outro lado esse escudo era uma bela de uma armadilha que nos sobrecarrega (até hoje e para sempre) a forçar o cérebro em diversos contextos diferentes simultaneamente. Nunca tinha parado para refletir sobre isso até encontrar este vídeo que deixo aqui anexo: um gameplay de simulador de Messenger chamado “Emily is away”.
É muito fácil de se identificar com a frustração e angustia do jogador quando duas pessoas, vivendo situações semelhantes porém com reações quase opostas, começam a falar simultaneamente contigo. Você interpreta o papel de amigo (com a possibilidade de virar algo mais) de ambas e cada interação sua tem uma consequência emocional em uma das personagens.
Suas interações são basicamente escolher qual resposta será dada conforme a história vai sendo revelada. Emily e Evelyn confiam em você progressivamente a cada level que se avança e revelam histórias e pensamentos cada vez mais íntimos. O desafio aumenta quando ambas precisam da sua atenção em momentos tensos de suas vidas e você tem um curto período de tempo para aconselhá-las, em contextos diferentes, com pensamentos diferentes, históricos de conversas diferentes e intenções diferentes.
Chegamos a um ponto crítico quando o tempo acaba e a pessoa que ficou no vácuo reage de forma decepcionada com a sua falta de sensibilidade ao não levar seus problemas a sério e fica offline. Mas o verdadeiro ponto crítico nisso aqui é pensar que isto é um simulador da vida real.
Até alguns anos atrás, era inconcebível a ideia de sermos tão onipresentes e ubíquos. A geração de “millennials” — ou quaisquer termos que prefira usar — e as que ainda estão por vir, nasce, cresce e vive num universo de inconstância simultânea, emocional, ideológica, 24/7. Não é de se admirar que tantos seres humanos estejam sofrendo de ansiedade, depressão, síndrome do pânico ou algum distúrbio psicológico atualmente.
Estamos nos condicionando a receber e digerir cargas enormes de informação cognitiva, a qual evolui junto com a nossa criatividade tecnológica (digo isto num sentido de que cada vez mais surgem novos gadgets e possibilidades de facilitar a comunicação global de forma constante). Traçando um cenário mental meio apocalíptico e caótico, é necessária muita disciplina para filtrar o que de fato vai impactar nossas vidas e aprender a lidar com o resto.
Esta geração e as próximas vão ditar muito sobre o comportamento neste paradigma social-tecnológico que ainda é imaturo. Enquanto isso, contribuímos sendo mais uma versão homeopática beta de atualização do sistema.
