O fim do iPod

Cristiana Carneiro
Jul 28, 2017 · 3 min read

Lembro quando o primeiro iPod foi lançado, meu pai dizia:

“a Apple cria computadores de verdade. Não é como esse que temos, esse aqui é brinquedo de criança perto de um Macintosh”

era um Win95 montado peça a peça por ele mesmo, entusiasta. “É que infelizmente aqui no Brasil um Apple custa o meu carro, mas lá fora é mais acessível. Agora eles estão se metendo com música… o aparelhinho é muito incrível, coisa de gente rica, mas não vejo pra quê, o discman faz a mesma coisa e custou 1/4 do preço. Apple é pra gente se inspirar, filha.”

E daí em 2006 o iPod já estava na sua quinta geração. E essa, meus amigos, tocava vídeo! — era inconcebível, na época, assistir vídeo fora de casa.

Em 2006 também eu fiz 15 anos e fui despachada para uma viagem na Disney. Tinha comigo cerca de U$1000 (pouco menos) pra comer e sobreviver 15 dias fora de casa. Eu nunca fui de ter dinheiro comigo, então não sabia direito como usar. Mas uma coisa eu sabia desde que botei os pés no aeroporto: se fosse preciso gastar tudo num iPod, eu não precisava comer.

A coisa foi que a viagem tava nos seus últimos dias e ainda não tinha passado por nenhum lugar que vendesse iPods. Até que numa vitrine de um shopping pequeno, tava ele lá se exibindo: enorme tela de 2,5", aquele wheel que fazia “tic tic tic” e era a coisa mais próxima de um touch decente que conhecíamos. Fiquei tão nervosa com a possibilidade daquele gadget ser finalmente meu que mal conseguia contar o dinheiro e precisei de ajuda de um adulto.✌️

Eu passava todas as horas vagas da minha semana assistindo MTV e depois corria pra minha conexão dial-up (aos domingos, que era de graça) para ansiar por muitas horas baixando os clipes que eu mais gostei, em algum programa p2p, e colocar no iPod (veja bem, estou falando de um cenário onde Youtube só tinha 01 ano de idade e ainda não havia um propósito muito esclarecido do seu objetivo, porque “ver video na internet” era algo surreal)

No ano seguinte, fui assaltada pela primeira e única vez e levaram o Big Boom (era o nome do iPod). Fiquei tão arrasada que no meu aniversário meus pais fizeram um esforço e compraram outro (Neo Boom), agora já em 2007, com capacidade de 80gb (o primeiro era de 30gb e já era um absurdo!). Em pensar que antes de iPod eu usava um mp3 player que cabia aproximadamente 12 músicas (e quando se é metaleiro e suas músicas preferidas tem 15 minutos, é muito difícil mesmo fazer caber).

Em 2009, no auge dos meus 17 anos e andando muito de transporte público, aposentei o Neo para usar apenas na segurança da minha casa e adquiri um modelinho Shuffle (verde, para combinar com o cabelo), discretinho, parecia um isqueiro, para ser meu companheiro de batalha. Até quando, no mesmo ano, o primeiro iPhone foi lançado no Brasil (já na versão 2 do aparelho, chamada “3G”) e aí acabou a funcionalidade dos iPods. 😕

Hoje, 2017, 25 anos, eu ainda tenho meus filhinhos e lembro com saudade de todos os momentos introspectivos em que foram minha única companhia. Também já os vi expostos em museus — o que é muito estranho considerando que contei os dias para seus lançamentos — e agora, o fim oficial.

Os paradigmas mudaram tanto que só resta dizer: ide em paz and thanks for all the fish. 🙂

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