Sobre como o entretenimento europeu não deixa o nazismo ser esquecido

O entretenimento alemão é fascinado pelo nazismo. Aquele meme do Hitler pistola na sala de reunião é de um filme de 2004. No fim de 2015 saiu por lá uma comédia onde Hitler volta e tenta viver nos dias de hoje. A Itália também adora falar da época do fascismo e da relação do país com os parceiros autoritários do norte. Tem até um filme do Pasolini que se passa nesse período, que é metade puta-crítica-social-meeeo, metade putaria escatológica. OK, é 95% putaria mesmo.

Esses filmes não existem para glorificar o nazismo ou o “mussolinizismo”. Eles existem pra manter a memória viva. Isso existiu, isso foi real, isso foi HORRÍVEL e fomos nós mesmos que fizemos isso, não foram seres de uma galáxia muito muito distante, zumbis, ou estrangeiros. Fomos nós. Como fomos capazes? Daí começa a conversa.

No Brasil… Ah, no Brasil a gente não fala sobre a ditadura de 1964. Aliás no Brasil a gente não fala do passado, somos o país do futuro. Não tem filme sobre o 7 de setembro, ou do governo Vargas, ou da Gurra do Paraguai. No máximo uma novelinha de época bem romântica pra passar 18h. Nossa música popular, que na época da ditadura era a principal ferramenta de protesto, hoje fala de pegação na balada e corações partidos. Ai se eu te pego! Aí temos um ministro da cultura dizendo que está de saco cheio de misturarem música com política e fãs putos com o Roger Waters dizer o que pensa sobre política. Música é pra divertir, pra relaxar. Pra alienar?

O nazi-fascismo pode voltar em qualquer lugar do mundo, mas se tem um país com zero por cento de chances de isso acontecer é na Alemanha. Os EUA, símbolos maiores da liberdade e democraciam, podem virar nazistas, mas a Alemanha não. Eles nunca vão esquecer, mesmo que tentem.

No Brasil a gente faz uma coisa bem brasileira, que é fingir que uma coisa ruim não aconteceu. Pra que remexer no passado? Vamos pensar no futuro. Olha quanta coisa cabe debaixo do tapete. O problema é que funciona. 50 anos depois a gente já está dizendo que a ditadura nem foi tão ruim assim. Ou que na real nem existiu. A gente escolhe esquecer.