Tutorial de como ir de “precisamos modernizar as leis” para “bandido bom é bandido morto”

Nossa receita começa com a mudança das leis trabalhistas no campo. Dizem que é para modernizar a CLT, cuja maior acusação é ter nascido nos anos 40. O velho no Brasil não é levado a sério. “Precisamos mudar a lei para gerar mais empregos”, mas pela quantidade de reuniões que nossos deputados tiveram com ruralistas ultimamente, acho que é só para aumentar o lucro deles, não sei o que você aí acha. Logo de cara vem a linha “a CLT não vale mais para trabalhadores rurais” e vai até a parte onde o patrão pode remunerar seus trabalhadores com casa e comida.

A esperança (deles) é baixar os custos. Agora as pessoas “vão” ter que trabalhar ganhando menos tanto no bolso quanto nos benefícios. Se não gostarem dessas novas condições a regra (do mercado) é clara: é só procurar outro emprego.

É isso que alguns vão fazer. Onde? Nas cidades. É lá (aqui?) onde as coisas acontecem! Olha quanta gente rica. É só eu dar duro que posso ter uma vida assim. Quando eu era moleque eu ouvia muito o nome das pessoas que faziam isso: retirantes. Não é novidade.

Para o dono da fazenda não vai fazer muita diferença, para quem está na cidade pode fazer. Esses retirantes vão chegar nas grandes cidades — que estarão vivendo sua própria reforma trabalhista — e provavelmente vão se alojar onde normalmente quem chega com a proverbial uma mão na frente, outra atrás, vai: a favela. Também chega sem nenhuma qualificação útil para a cidade. A pressão no lado da procura de emprego aumenta e parte desses novos trabalhadores urbanos, junto com uns que já estavam na cidade, não vai conseguir trabalhar. Tempos de crise, você sabe.

Mais gente desempregada, que continua tendo conta para pagar. O que me faz lembrar da frase mais cruel que eu li nos últimos anos, no Reddit, quem diria.

O ser humano é a única espécie do planeta que precisa pagar para viver

Não tem emprego mas os boletos continuam chegando. Algumas dessas pessoas vão voltar para o campo, outras vão tentar cidades diferentes, outras vão abrir seu próprio negócio e chegar ao sucesso ou ao fracasso. Algumas vão se voltar para o crime. Para nossa história virar verdade não é preciso que sejam muitas. Só é preciso uma, na verdade.

Nosso “herói” provavelmente vai começar com crimes pequenos e, se tudo der “certo” na nova carreira, vai começar a aumentar a gravidade dos crimes. Afinal de contas a polícia não consegue cuidar de todos os casos, não está interessada em ir atrás de gente assim. Talvez ele ou ela (provavelmente será um ele) até seja preso por alguma coisa pequena, passe um tempo na cadeia e lá tenha contato com os verdadeiros peixes grandes da criminalidade. Vai sair e não vai conseguir um emprego — quem vai contratar ex-preso quando não há emprego até pra quem é de bem?

Até que ele vai cometer um crime realmente grande, desses de sair no Jornal Nacional. Vai ser chocante e todo mundo — inclusive eu — vai ficar revoltado. Como aquilo foi possível? Que tipo de pessoa é capaz de uma crueldade dessas?

Vão aparecer algumas explicações. Nosso personagem veio do campo, ou de uma família que veio do campo e uma série de acontecimentos o levou até aquele ponto. Todos nascem bons, certo? São as circunstâncias que nos levam à maldade. Aquele crime, vão nos dizer, começou lá atrás com uma reunião de um dono de fazenda com um deputado, no agora distante ano de 2017, para melhorar um pouco o lucro da fazenda. O resto foi ladeira abaixo.

Qual será a reação da sociedade a essa explicação? “Lá vem esses defensores dos direitos humanos! Tá com pena de bandido? Leva pra casa! Direitos humanos só para humanos de direito.”

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.