Familiares dos formandos recebam a homenagem

Sempre amei formaturas, de todas as que eu fui, não teve uma que eu não chorasse ou tivesse vontade de chorar. Tem gente que chora em casamentos, eu choro em formaturas. É muito difícil explicar porque eu choro e me emociono, nem eu sei direito o porque, talvez seja uma mistura de muitos sentimentos, de coisas internalizadas que eu ainda não consegui dissecar e superar. Acho que é porque uma graduação é fruto inteiramente seu, de mais ninguém, é um título, é um status que nos é imposto desde muito cedo, é algo que precisamos, segundo a escola, segundo a sociedade. Nós seguimos o fluxo, mesmo que seja imposto, e apesar de imposto, muitos amam a área na qual se especializam e ISSO, sim, isso é o que me emociona, não deixa de ser uma conquista, uma etapa da vida concluída, por mais clichê que pareça tudo isso, para mim é sim um acontecimento importante.

De onde eu vim, nível superior não é comum. Esperam que nós, os filhos de empregadas domésticas, faxineiras e outras áreas dos serviços geral, sejam empregados de alguém, sejam subordinados de alguém, sejam técnicos em alguma coisa, mas graduado? “Não, né, aí já é demais, onde já se viu, se for graduado vai ser, vai sei, vai ser igual a mim? Aí já é demais.”

É, deve ser por isso, por ter crescido sob esse pensamento de que nós, eu e meus irmãos, filhos de uma faxineira, não poderíamos ter uma educação superior, por isso que pra mim, sempre é emocionante ver uma formatura, de um amigo, de um irmão, porque apesar de saber o quanto pra nós foi muito mais difícil chegar lá, nós conseguimos. E mais que isso, hoje, eu fico imaginando também como será na minha vez, eu choro muito só de imaginar a minha vez. Tá mais perto do que nunca, mas ainda está longe, ao mesmo tempo, só eu sei o que foi preciso, e o que será preciso ainda mais, pra chegar lá em cima, com aquela roupa que não favorece ninguém, mas todo mundo quer usar.

Ela estava linda, radiante como sempre, ela sempre teve um brilho, que como eu escrevi uma vez, em um cartão de aniversário para ela, parafraseando Galeano “Cada estrela brilha com sua luz própria entre todas as outras. Não existe duas fogueiras iguais.” E isso a descreve muito bem, minha mãe diz que ela é o tipo de pessoa que pode cair num poço de merda e sair cheirando a flores, eu concordo, jamais conheci pessoa que tivesse tanta sorte e desenvoltura na vida como ela, e apesar de tantas qualidades, jamais conheci pessoa mais egoísta que a mesma.

O discurso do professor homenageado, esse discurso me fez chorar, coisa que eu ainda não tinha feito naquela cerimônia até então. Eu não me recordo das palavras exatas, queria eu ter um vídeo para poder transcrever o que ele dizia, porque foi de uma profundidade, de um conhecimento sobre o ser humano tão forte que eu chorei. Talvez tenha me tocado porque falava de uma coisa que eu conheço melhor do que eu mesma, a depressão. Ele disse algo como: “Um profissional de psicologia não vai encontrar respostas para a cura da depressão de um paciente em livros, e sim dentro do próprio paciente”. Escrevendo aqui parece tão simplório, mas foi mais do que isso naquele momento. Eu vi ela chorando durante esse discurso, a agora atual psicóloga em nossa família. Achei curioso ela se emocionar tanto com esse discurso, visto que ela convive e conviveu por quase 30 anos com uma depressiva e nunca soube lidar com a doença dessa forma.

E quando tem aquele momento em que pedem para os familiares se levantarem para receber a homenagem, levantamos todos. Eu me questionando que foto minha seria colocada, quando que tiramos se quer uma foto todos juntos para poder colocar lá? Teria ela feito uma montagem com todos os familiares? E como sempre, não canso de me surpreender com ela. Lá estava a imagem do que pra ela representava toda a família e o seu agradecimento: Ela, seu marido e seu filho.

Só ha poucas semanas eu realmente consegui transpor o sentimento que eu tive em relação a isso, eu internalizei, como eu faço com tudo o que me machuca, principalmente quando se trata de família, eu fico querendo não lidar com as coisas e guardo em um baú secreto dentro da minha mente, mas esse baú não está bem trancado, então as coisas acabam saindo, e eu acabo tendo que lidar, mesmo que tardiamente.

E lá estava eu com essa informação no peito, querendo gritar o quanto eu senti raiva, o quanto o desprezo pela família materna dela me magoa e me dói, me deixa doente e me faz mal. O quanto é dolorido pra mim saber que nem eu, nem a minha mãe merecemos um agradecimento por termos feito parte de toda a sua construção como pessoa, que ela só chegou lá porque atrás desse diploma tem o suor da mãe dela, que trabalhou incansavelmente para que não faltasse nada na educação, que apesar de ser uma educação de escola pública, os ideais de acreditar que nós merecemos mais nos foram dados desde muito cedo, que nós sabíamos e desejávamos entrar na faculdade desde sempre. Acho que eu merecia uma lembrança, pelos anos dividindo o mesmo quarto, a mesma cama, as mesmas roupas, pela amizade que talvez um dia tivemos, pelos tantos anos em que ela foi o meu exemplo a seguir, mesmo que hoje já não o seja mais.

Não teve nada para nós. O patamar dela foi elevado um nível e a nós só resta lamentar o esquecimento de todas as origens, a vida para ela mudou, a família não é mais a mesma e eu me sinto como um cachorro que é deixado para trás quando o dono se muda para um lugar que não há espaço para animais.

O que eu levo de aprendizado disso? Ainda é difícil definir, mas sei o que faria, sei que eu, eu jamais esqueço quem me colocou onde eu estou, quem, de alguma forma me ajudou a ser quem eu sou hoje. E mesmo que eu tenha um pensamento completamente diferente do da minha mãe, eu não esqueço que ela que me deu todos os subsídios para que eu fosse quem eu quis ser, e isso, nem toda homenagem do mundo vai ser suficiente, mas quando chegar a minha vez, eu sei que foto vai estar naquele telão.

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