Quando paro pra ouvir o meu corpo

Imagem: pixabay

(Talvez você goste de ler ouvindo Damien Rice, ou não. https://www.youtube.com/watch?v=ZduDvIBu3EU)

Estive pensando em todas as vezes que não ouvi o meu corpo nos últimos anos e buscando entender onde foi que perdi a motivação, o prazer, a alegria no cuidado comigo mesma. Estaria tudo isso enterrado debaixo de uma montanha de obrigações e preocupações? Será que essa empolgação foi engolida pela necessidade de manter as contas em dia todos os meses? Devo colocar a culpa na maternidade que me toma tempo ou no excesso de trabalho que eu mesma construí? Ou seriam todos esses argumentos, talvez, apenas desculpas, lamentos, justificativas que me tornam a vítima perfeita?

Aos 36 anos, com um filho imensamente carinhoso aos seus 4 anos e quase 4 meses (como ele faz questão de dizer), divorciada, construindo meu próprio negócio com erros e acertos, sinto como se um fluxo intenso quisesse, literalmente, me acordar para vida. Saudosista, me apego às lembranças da época em que a única preocupação era estudar e garantir que o aprendizado me tornasse uma boa profissional. Que menina privilegiada! Havia tempo pra academia, havia tempo pra ler, havia tempo pra jogar conversa fora e rir dessa vida deliciosa que recebi. Nesta minha lembrança parece que o único desejo era que eu me sentisse aceita, incluída e sentisse que as pessoas ao me redor gostavam de mim e me aprovavam. Mesmo que isso significasse um pouco de esforço interno pra concordar com fatos, pessoas e argumentos que não tinham nenhum sentido. Certamente eu estava me escondendo atrás de sei lá o que.

Chegou o momento em que sou obrigada a acordar. Tá pensando que aqui tem festa? Não tem festa nenhuma não. É precisoque despertar, abandonar as lembranças e encontrar ritmo, fluxo, constância para um novo momento na vida. Foi então que, em um movimento completamente oposto à vida privilegiada que eu tinha, fui impulsionada a olhar para a verdade, para o que tem de real pra fazer por aqui. Eu não posso dizer que me tranquei em casa, que só falo de problemas e que não me divirto mais, porque felizmente construo amizades encantadoras pelo meu caminho e tenho aprendido a encontrar leveza, alegria e diversão em situações que antes eu considerava extremamente entediantes.

Tal realidade, tais necessidades fizeram com que as preocupações ocupassem grande parte do meu tempo. Com sentimento de frustração e derrota pelas coisas que não conquistei, busco força e foco pra poder exercer minha liberdade e desfrutar de uma independência que depende somente de mim. Eu vou conseguir, eu preciso conseguir. Obsessão. Parece que nada mais tem importância a não ser educar com empatia e amor o meu filho e construir minha vida profissional como gente grande, sem depender absolutamente de ninguém. Mas criei um problema sacrificando meu corpo físico.

Muitas horas de estudo, noites mal dormidas, alimentação completamente desbalanceada e nenhuma atividade física incluída na minha rotina diária. Neste ritmo intenso ao longo de 2 anos, com raras semanas de lucidez e cuidado com a saúde, imagino que eu estivesse esperando o momento de uma pane total.

Nos últimos dias um cansaço absurdo tem tomado conta de mim. Durmo mal, sinto que não descanso. Tenho dificuldade de gerar minha própria energia. Me sinto ofegante ao mínimo esforço. Desenvolvi um refluxo que me acompanha há tanto tempo que quase aprendi a conviver com ele. Minha querida, sinto te dizer, mas é hora de encarar mais essa responsabilidade.

Felizmente o conhecimento e a experiência em áreas específicas na fisioterapia me ensinaram a estabelecer um diálogo com meu corpo. Ele já dizia há bastante tempo e eu, que antes ignorava, decidi ouvir, respeitar e atender ao que ele tem implorado. A respiração ofegante, o estômago que queima, as olheiras profundas, a textura da pele, o sangue — ou a falta dele — na menstruação, a musculatura implorando por movimento, por alongamento, por oxigênio. O corpo falando, o corpo guardando memórias, o corpo sentindo minha negligência e abandono.

E nesse ritmo intenso que nos colocamos, em que todos estamos correndo sem tempo pra nada, como dedicar tempo fazendo exercícios físicos e cozinhando alimentos mais saudáveis, sem sentir culpa? Parece que não há tempo pra isso. Ainda sinto uma urgência pelo trabalho. E quando me lembro do tempo desperdiçado checando mídias sociais, acompanhando o que outros estão fazendo, nada disso faz sentido. O tempo existe, só precisa ser priorizado.

Meus sintomas são minha motivação. É no meu corpo que eu me encontro em mim mesma. É ele que conta essa história. É ele que me acompanha e que me lembra que não existe auto conhecimento, nem desenvolvimento mental ou espiritual, se não considerarmos nosso físico. Mente, corpo. Estruturas construindo uma história, pedindo movimento, precisando de alimento.

Enquanto reflito sobre essas questões fico implorando a mim mesma pra que esse não seja apenas mais um surto de empolgação e que eu possa, de fato, modificar hábitos tão prejudiciais pra minha vida nesse momento. Mudança nos hábitos alimentares, na atividade física, no padrão do sono. Como realmente manter a constância nessas ações? Por que insistimos tanto naquilo que nos faz mal?

E por hoje seguimos buscando a receita perfeita de chips de batata doce que possa acolher o coração na falta do glúten.

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