Chuva
Papai havia morrido. Depois do enterro, as duas filhas, abaladas, estavam sentadas frente a frente conversando sobre seus sofrimentos de irmãs. Das quatro cadeiras de madeira da sala de jantar, duas estavam vazias. A mãe havia morrido no parto da última filha e, agora, fora a hora do patriarca da família. Ainda parecia que havia alguma presença ali, naquele canto da mesa onde ele sempre se sentara. O perfume do cigarro de palha não estava mais lá, mas ambas as filhas ainda sentiam aquele cheiro característico. A mais nova, cuidadosa que era, iria, como de costume, passar o café do final da tarde para que seu velho pai o tomasse. A mais velha, extremamente racional, já ralharia: "tosca! Assim, papai não dormirá". As lembranças balburdiavam no silêncio. Elas se entreolhavam, agora, frente a frente, caladas. Não havia forças para dizer coisas quaisquer. O pôr do sol já se ia rolando atrás das nuvens nubladas. Apesar de ninguém ver raio de sol algum, a estrela permanecia a brilhar. A chuva se fortificou, e a mais velha, desolada, encontrou forças para quebrar a mudez:
- Papai não merecia estar agora todo enlameado.
Os olhos da mais nova se encheram de água, como as nuvens do céu, e, tentando dar um leve sorriso, respondeu:
- Sempre vi os pingos de chuva como os beijos de Deus.
Cris Guedes (28/07/2017)
