O fim do capitalismo começou


Sem que a gente perceba, entramos na era pós-capitalista. E no cerne desta mudança que se aproxima estão a tecnologia, as novas formas de trabalho e a economia de compartilhamento. Os velhos hábitos demorarão um tempo para sumir, mas é tempo de ser utópico

Este texto é uma tradução e adaptação do original escrito por Paul Manson (@paulmasonnews), no Guardian

As bandeiras vermelhas e músicas de marcha do Syriza durante a crise da Grécia, mais a expectativa que os bancos seriam nacionalizados, reviveu brevemente um sonho do século 20: a destruição forçada do mercado a partir do seu topo. Durante grande parte do século 20 foi assim que a esquerda concebeu a primeira fase de uma economia para além do capitalismo. A força seria aplicada pela classe trabalhadora, fosse nas urnas ou nas barricadas. A alavanca seria o Estado. A oportunidade viria através de episódios frequentes de colapso econômico.

Ao invés disso, nos últimos 25 anos, foram as concepções da esquerda que colapsaram. O mercado destruiu o plano; o individualismo foi substituído pelo coletivismo e solidariedade; a imensamente expandida força de trabalho do mundo se parece com o “proletariado”, mas não mais se sente ou se comporta como tal.

Se você viveu tudo isso, e não gosta do capitalismo, foi um processo traumático. Mas, nesse meio tempo, a tecnologia criou uma rota de fuga, que os remanescentes da velha direita — e todas as forças influenciadas por ela — tiveram que abraçar ou morrer. O capitalismo, aparentemente, não será abolido por técnicas de marcha forçada. Será abolido, a princípio, pela criação de algo mais dinâmico do que já existe. Algo que é quase invisível aos olhos do velho sistema, mas que irá romper e remodelar a economia em torno de novos valores e comportamentos. Eu chamo isso de pós-capitalismo.

O mercado destruiu o plano;
o individualismo foi substituído
pelo coletivismo e solidariedade;
a imensamente expandida força
de trabalho do mundo se parece
com o “proletariado”, mas não
mais se sente ou se comporta
como tal

Tal como aconteceu com o fim do feudalismo há 500 anos, a substituição do capitalismo pelo pós-capitalismo será acelerada por choques externos e afiada pela emergência de um novo tipo de ser humano. E isso já começou.

O pós-capitalismo é possível devido a três grandes mudanças que a tecnologia da informação trouxe nos últimos 25 anos. Em primeiro lugar, reduziu a necessidade de trabalho, desfocou as fronteiras entre trabalho e lazer e afrouxou a relação entre trabalho e salário. A futura onda de automação, atualmente em um impasse porque nossa infraestrutura social não consegue lidar com as consequências, irá diminuir muito a quantidade de trabalho necessária — não apenas para subsistir, mas para proporcionar uma vida digna a todos.

Em segundo lugar, a informação está corroendo a capacidade do mercado de estabelecer os preços corretamente. Isso acontece porque os mercados são baseados na escassez, enquanto a informação é abundante. O mecanismo de defesa do sistema é formar monopólios — as gigantes empresas de tecnologia — em uma escala nunca vista nos últimos 200 anos, que, porém, não irá durar. Através da construção de modelos de negócio e avaliações compartilhadas baseadas na captura e privatização de toda a informação produzida pela sociedade, tais empresas estão construindo um frágil edifício corporativo em desacordo com a mais básica das necessidades humanas, que é o uso livre das ideias.

Por último, nós observamos o espontâneo crescimento da produção colaborativa: bens, serviços e organizações parecem não mais responder aos mandos do mercado e da hierarquia gerencial. A maior produtora de informação do mundo — a Wikipedia — é feita por voluntários gratuitamente, abolindo o mercado das enciclopédias e privando a indústria de publicidade de ganhar aproximadamente US$ 3 bilhões em receitas.

Quase despercebido, os nichos e buracos no sistema de mercado, trechos inteiros da vida econômica, estão começando a se mover em um ritmo diferente. Moedas paralelas, banco de horas¹, empresas colaborativas e espaços autogerenciáveis têm se proliferado, mal percebidos pelos economistas profissionais, e que, muitas vezes, são resultado direto da quebra de velhas estruturas no pós-crise de 2008.

Você só consegue achar essa nova economia se observar com muita atenção. Na Grécia, quando uma ONG local mapeou as empresas colaborativas de alimento do país, produtores alternativos, câmbios paralelos e sistema de trocas locais, encontrou mais de 70 projetos robustos e mais algumas centenas de menores iniciativas que vão desde compartilhamento de caronas até jardins de infância gratuitos. Para a economia tradicional, coisas assim mal se qualificam como atividade econômica — mas esse é o x da questão. Elas existem porque fazem trocas, mesmo que de forma hesitante e ineficiente, dentro da moeda do pós-capitalismo: tempo livre, atividade conectada e itens gratuitos. Parece algo escasso, clandestino e até mesmo perigoso para considerar como uma alternativa para um sistema global, mas assim também eram considerados o dinheiro e sistema de crédito na época do rei Eduardo III.

Novas formas de propriedade, novas formas de empréstimos, novos contratos legais: toda uma subcultura de negócios emergiu nos últimos dez anos, que a mídia apelidou de “economia de compartilhamento”. Palavras-chave como commons² e peer-production³ são jogadas a nossa volta, mas poucos se preocuparam em perguntar o que isso significa para o capitalismo em si.

Acredito que esse conceito oferece uma rota de fuga — mas apenas se esses pequenos projetos forem nutridos, promovidos e protegidos por mudanças fundamentais na atuação do governo. E isso deve ser conduzido por uma mudança em nosso modo de pensar — sobre a tecnologia, propriedade e trabalho. Dessa forma, quando criarmos os elementos do novo sistema, poderemos dizer a nós mesmos e aos outros: “Isso não é apenas mais um mecanismo de sobrevivência, um esconderijo do mundo neoliberal; isso é uma nova forma de se viver em seu processo de formação”.

A crise de 2008 acabou com 13% da produção e 20% do comércio globais. O crescimento mundial ficou negativo — em uma escala onde tudo que fica abaixo de 3% é considerado recessão. Resultou-se, no ocidente, uma fase de depressão mais longa que do período de 1923–33, que, mesmo agora, em meio a uma recuperação tímida, deixou os economistas apavorados com a perspectiva de estagnação em longo prazo. As reverberações na Europa estão despedaçando o continente.

As soluções têm sido austeridade mais excesso monetária. Mas isso não está funcionando. Nos países mais afetados, o sistema de previdência está destruído, a idade para se aposentar subiu para os 70 anos e a educação está sendo privatizada de forma que os jovens têm que enfrentar uma vida de dívidas. Serviços estão sendo desmantelados e projetos de infraestrutura colocados na geladeira.

Mesmo agora, muitas pessoas não conseguem entender o verdadeiro significado da palavra austeridade. Austeridade não são oito anos de cortes nos gastos, como no Reino Unido, ou mesmo a catástrofe infligida na Grécia. Significa derrubar salários, salário-mínimo e padrão de vida no ocidente por décadas até que se encontrem com os da classe-média da China e Índia, que estão em ascensão.

Enquanto isso, na ausência de qualquer modelo alternativo, as condições para outra crise estão se projetando. Os salários reais estão caindo ou ficando estáveis no Japão, sul da zona do Euro, EUA e Reino Unido. A sombra no sistema bancário se instalou novamente, e está maior do que em 2008. Novas regras que obrigam bancos a segurar mais reservas têm sido dissolvidas ou postergadas. Enquanto isso, inundado em dinheiro, o 1% tem se tornado mais rico.

Neoliberalismo, então, se transformou em um sistema programado para infligir falhas catastróficas recorrentes. Pior que isso, o neoliberalismo tem quebrado um padrão de capitalismo industrial de 200 anos no qual crises econômicas estimulam novas formas de inovação tecnológica que beneficiam a todos.

Enquanto isso, na ausência de
qualquer modelo alternativo,
as condições para outra crise
estão se projetando

Isso aconteceu porque o neoliberalismo foi o primeiro modelo econômico em 200 anos cuja premissa suprime os salários e destrói o poder social e a resiliência da classe trabalhadora. Se analisarmos a ascensão de longos períodos estudados por teóricos — os anos 1850 na Europa, os 1900 e 1950 pelo mundo — foi a força do trabalho organizado que forçou empreendedores e corporações a pararem de reviver modelos de negócio ultrapassados através de cortes de salário, e inovar seus caminhos para uma nova forma de capitalismo.

O resultado é que, a cada ascensão, encontramos a síntese da automação, salários mais altos e alto valor de consumo. Hoje, não há pressão da classe trabalhadora, e a tecnologia no centro dessa onda de inovação não exige a criação de gastos de alto consumo, ou a recontratação da velha força de trabalho em novos empregos. A informação é a máquina que força a queda do preço das coisas e reduz o tempo de trabalho necessário para manter a vida no planeta.

Como resultado, grande parte da classe de empresários se tornou neoludita. Confrontados com a possibilidade de criação da sequência de genes no laboratório, por exemplo, eles começaram a abrir cafeterias, salões de manicure e empresas de limpeza: o sistema bancário, o sistema de planejamento e a cultura pós-neoliberal de recompensa acima da criação de empregos de baixo-valor e de expediente longo.

A inovação está acontecendo, mas não é, nem de longe, acionada pela quinta longa ascensão do capitalismo que as teorias de longos-ciclos esperavam. E sim pela natureza específica da tecnologia da informação.

Estamos rodeados não só por máquinas inteligentes, mas por uma nova camada de realidade centrada na informação. Uma empresa aérea, por exemplo: é um computador que voa, que foi desenhado, testado e “virtualmente fabricado” milhões de vezes; e está disparando informações, em tempo real, de volta para seus fabricantes. A bordo, há pessoas olhando para suas telas e, em alguns países sortudos, até mesmo estão conectados a internet.

Visto do chão, é o mesmo pássaro branco de metal da época de James Bond. Mas agora é tanto uma máquina inteligente quanto um ponto dentro da rede mundial. Ele tem conteúdo e está adicionando “valor de informação” tanto quanto valor físico no mundo. Em um voo de negócios, quando todo mundo está olhando para telas de Excel ou PowerPoint, o passageiro na cabine pode ser visto mais como uma fábrica de informação.

Mas quanto toda essa informação vale? Você não vai encontrar a resposta em suas contas bancárias: a propriedade intelectual está avaliada em padrões adivinhatórios. Um estudo feito pelo SAS Institute em 2013 descobriu que, na hora de estabelecer valores para dados diversos, nem o custo de se reunir esses dados, ou o valor de mercado ou rendimento futuro desses dados poderiam ser calculados adequadamente. Apenas através de uma forma de contabilizar que inclui benefícios não-econômicos e riscos, empresas poderiam explicar para seus acionistas quanto realmente seus dados valem. Algo está quebrado com a lógica que usamos para calcular a coisa mais importante do mundo moderno.

O grande avanço tecnológico do começo do século 21 consiste não apenas em novos objetos e processos, mas fazer com que os antigos sejam inteligentes. O conhecimento aplicado aos produtos está se tornando mais valioso que os ativos físicos usados para produzi-los. Mas esse é um valor medido pela sua utilidade, e não pelo seu valor de troca ou de patrimônio.

Nos anos 90, economistas e profissionais de tecnologia começaram a ter a mesma ideia ao mesmo tempo: que esse novo papel para a informação estava criando um novo, “terceiro” tipo de capitalismo — tão diferente do capitalismo industrial quanto ele foi diferente do capitalismo comerciante e escravagista dos séculos 17 e 18. Mas eles têm se esforçado para descrever a dinâmica desse novo capitalismo “cognitivo”. E com razão: a dinâmica é profundamente não-capitalista.

Durante e depois da Segunda Guerra Mundial, os economistas viam a informação apenas como um “bem público”. O governo dos Estados Unidos até decretou que nenhum lucro deveria ser obtido através de patentes, apenas por meio de processos de produção. Então, começamos a entender o conceito de propriedade intelectual. Em 1962, Kenneth Arrow, um guru da economia, disse que em um mercado econômico livre, o propósito de inventar coisas é criar direitos de propriedade intelectual. Ele observou: “precisamente na medida em que é bem sucedida, há uma subutilização da informação”.

Você pode observar essa verdade em cada modelo de negócio eletrônico construído: monopolizar e proteger os dados, capturar dados sociais gerados pela integração dos usuários, empurrar forças comerciais para áreas de produção de dados que não eram comerciais anteriormente, minar os dados existentes para valores preditivos — garantindo sempre que ninguém além da empresa pode utilizar os resultados.

Se reafirmarmos o princípio de Arrow de forma contrária, suas implicações revolucionárias são bem óbvias: se um mercado econômico livre, mais a propriedade intelectual levam a uma “subutilização da informação”, então uma economia baseada na utilização total da informação não pode tolerar o mercado livre ou direitos de propriedade intelectual absolutos. Os modelos de negócios de todas nossas grandes empresas digitais são desenhados para prevenir a abundância de informação.

No entanto, a informação é abundante. Bens de informação são livremente reaplicáveis. Uma vez que algo é feito, pode ser copiado/colado de forma infinita. Uma música ou a base de dados gigante que você precisa para criar uma empresa aérea tem um custo de produção; mas todos os custos de reprodução caem para zero. Portanto, se o mecanismo de precificar do capitalismo prevalecer ao longo do tempo, seu preço irá cair para zero também.

Nos últimos 25 anos, a economia vem lutando com esse problema: todos os procedimentos da economia tradicional provém de uma condição de escassez, no entanto, a maior parte da força dinâmica do nosso mundo moderno é abundante e — como o gênio excêntrico Stewart Brandon disse uma vez — “quer ser livre”.

Há, juntamente com um mundo de informação monopolizada e vigilância criada pelas corporações e governos, uma dinâmica diferente crescendo em torno da informação: informação como um bem social, livre no ponto de vista de utilização, incapaz de ser propriedade, ser explorada ou precificada. Eu pesquisei as tentativas de economistas e gurus de negócios de construir uma estrutura para entender as dinâmicas de uma economia baseada em informação abundante e socialmente sustentada. Mas, na realidade, ela foi imaginada por um economista do século 19, na época dos telégrafos e das máquinas a vapor. Seu nome? Karl Marx.

A cena se passa em Kentish Town, em Londres, fevereiro de 1858, por volta das 4 da manhã. Marx, que é um homem procurado na Alemanha, trabalha com afinco rabiscando pensamentos e notas para si mesmo. Quando finalmente conseguiram ver em que ele estava trabalhando naquela noite, os intelectuais da esquerda da década de 1960 deveriam admitir que “desafiava toda interpretação séria sobre Marx já concebida”. Seu nome era “Os Fragmentos sobre as Máquinas”.

No “Fragmento”, Marx imagina uma economia em que o principal papel das máquinas é produzir, e o principal papel das pessoas é supervisioná-las. Ele foi claro que, em tal economia, a principal força produtiva seria a informação. O poder de produção de tais aparelhos como a máquina de tecer algodão, o telégrafo e a locomotiva a vapor não dependiam da quantidade de trabalho que levava para produzi-los, mas o estado do conhecimento social. Organização e conhecimento, em outras palavras, fizeram uma maior contribuição para o poder produtivo do que o trabalho de fabricar e fazer funcionar essas máquinas.

Levando em conta o que o Marxismo se tornou — uma teoria sobre a exploração baseada no roubo do tempo de trabalho — essa é uma afirmação revolucionária. Ela sugere que, uma vez que o conhecimento se torne uma força produtiva em seu próprio direito, superando o trabalho real utilizado ao criar a máquina, a grande questão não são os salários versus lucros, mas quem controla o que Marx chamou de “poder do conhecimento”.

Em uma economia onde as máquinas fazem a maior parte do trabalho, a natureza do conhecimento presa dentro das máquinas deve, ele escreve, ser “social”. Um pensamento formulado por Marx imaginou o ponto final desta trajetória: a criação de uma “máquina ideal”, que dura para sempre e não tem custo nenhum. Ele diz que uma máquina que pode ser construída por nada, não adiciona nenhum valor ao processo de produção e, rapidamente, ao longo de vários períodos contabilísticos, reduz o preço, lucro e custos de trabalho em tudo que toca.

Uma vez compreendido que a informação é física, e o software é a máquina; e a armazenagem, largura de banda e poder de processamento têm seus preços colapsando a taxas exponenciais, o valor do pensamento de Marx se torna claro. Estamos cercados por máquinas que custam nada e podem, se quisermos, durar para sempre.

Nestas reflexões, não publicadas até a metade do século 20, Marx imaginou a informação chegando ao ponto de ser armazenada e compartilhada em algo chamado “intelecto geral” — a mente de todas as pessoas da Terra conectadas pelo conhecimento social, em que cada upgrade beneficiaria a todos. Resumindo, ele imaginou algo bem próximo da economia de informação da qual nós vivemos atualmente. E, segundo ele, sua existência iria chutar a bunda do capitalismo.

Mas um caminho diferente se abriu. A produção colaborativa, usando a rede de tecnologia para produzir bens e serviços que apenas funcionam quando são gratuitos, ou compartilhados, define a rota por trás do sistema de mercado. Ela vai precisar do Estado para criar a estrutura — assim como criou a estrutura para o trabalho em fábricas, câmbio e mercado livre no fim do século 20. O setor pós-capitalista é capaz de coexistir com o mercado por décadas, mas a principal mudança está acontecendo agora.

As redes restauram a “granularidade” do projeto do pós-capitalismo. Isto é, elas podem ser as bases de um “não-sistema de mercado” que replica a si mesmo, e que não precisa ser criado novamente todas as manhãs na tela do comissário de bordo.

Essa transição irá envolver o Estado, o mercado e a produção colaborativa para além do mercado. Mas, para fazer isso acontecer, todo o projeto da esquerda, desde os grupos de protesto até os partidos sociais-democratas liberais tradicionais, terão que ser reconfigurados. De fato, uma vez que as pessoas tenham entendido a lógica da transição para o pós-capitalismo, tais ideias não serão mais propriedade da esquerda — mas um movimento muito mais amplo, que precisará de novos rótulos.

Quem pode fazer isso acontecer? No velho projeto da esquerda era a classe trabalhadora industrial. Há 200 anos, o jornalista radical John Thelwall avisou as pessoas que construíram as fábricas inglesas que eles haviam criado uma nova e perigosa forma de democracia: “Toda grande oficina e fábrica é um tipo de sociedade política da qual nenhum ato parlamentar pode silenciar, e nenhum magistrado pode dispersar”.

Hoje, toda a sociedade é como uma fábrica. Todos nós participamos na criação e recriação das marcas, normas e instituições que nos rodeiam. Ao mesmo tempo, as redes de comunicação vitais para o trabalho diário e lucro estão buzinando com conhecimento compartilhado e descontentamento. Hoje, essa é a rede — como a fábrica de 200 anos atrás — que não pode ser “silenciada ou dispersada”.

Claro, Estados podem derrubar o Facebook, Twitter, até mesmo toda a internet e a rede de celulares em tempos de crise, paralisando a economia no processo. E eles podem armazenar e monitorar cada kilobyte de informação que produzimos. Mas eles não podem impor novamente uma sociedade ignorante e manipulada pela propaganda como a de 50 anos atrás, exceto — como na China, Coreia do Norte ou Irã — se deixarem de fora partes cruciais da vida moderna. Seria, como o sociólogo Manuel Castells diz, como tentar tirar a eletricidade de um país.

Ao criar milhões de pessoas conectadas, financeiramente exploradas, mas como toda a inteligência humana a um clique de distância, o info-capitalismo criou um novo agente de mudança na história: o ser humano educado e conectado.

Essa será mais do que uma transição econômica. Há, claro, as tarefas paralelas que são urgentes como descarbonizar o mundo e lidar com bombas-relógio fiscais e demográficas. Mas estou me concentrando na transição econômica desencadeada pela informação porque, até agora, ela tem sido marginalizada. O Peer-to-peer4 tem sido rotulado como um nicho de visionários obcecados, enquanto o pessoal “gente grande” da esquerda continua criticando a austeridade.

Na verdade, em lugares como a Grécia, a resistência à austeridade e a criação de “redes que você não pode negligenciar” — como um ativista me disse — andam de mãos dadas. Acima de tudo, o pós-capitalismo como um conceito é sobre novas formas de comportamento humano que os economistas convencionais dificilmente veriam como relevante.

Ao criar milhões de pessoas conectadas, financeiramente exploradas,
mas como toda a inteligência
humana a um clique de distância,
o info-capitalismo criou um novo
agente de mudança na história:
o ser humano educado e conectado

Então, como nós podemos visualizar a transição que se aproxima? O único paralelo coerente que temos é a substituição do feudalismo pelo capitalismo — e graças a epidemiologistas, geneticistas e analista de dados, nós sabemos muito mais sobre essa transição do que sabíamos há 50 anos, quando o tema “pertencia” somente às ciências sociais. A primeira coisa que precisamos reconhecer é: diferentes modos de produção são estruturados em torno de coisas diferentes. O feudalismo era um sistema econômico estruturado por costumes e leis baseados na “obrigação”. O capitalismo é estruturado por algo puramente econômico: o mercado. A partir disto, podemos apenas prever que o pós-capitalismo — cuja pré-condição é abundância — não será apenas uma forma modificada da complexa sociedade de mercado. Agora, podemos apenas começar a entender, a partir de um ponto de vista positivo, como ele será.

Não quero dizer que essa é uma maneira de evitar a questão: os parâmetros da economia de uma sociedade pós-capitalista no ano de 2075, por exemplo, podem ser traçados. Mas, se tal sociedade está estruturada em torno da libertação humana, não econômica, coisas imprevisíveis começarão a tomar forma.

Por exemplo, a coisa mais óbvia para Shakespeare, em 1600, era que o mercado havia trazido novas formas de comportamento e moralidade. Por analogia, a coisa mais obvia para o Shakespeare de 2075 será a total reviravolta nas relações de gênero, ou sexualidade, ou saúde. Talvez nem mesmo existam dramaturgos: talvez a própria natureza da mídia que usamos para contar histórias irá mudar — assim como mudou a Londres Elisabetana quando os primeiros teatros públicos foram construídos.

Pense na diferença entre, digamos, Horácio e Hamlet e um personagem como Daniel Doyce do livro A Pequena Dorrit, de Dickens. Ambos carregam consigo uma obsessão de sua época — Horácio é obcecado com filosofia humanista; Doyce é obcecado em patentear sua invenção. Não pode haver personagem como Doyce em obras de Shakespeare; ele pode, no máximo, ter um pequeno papel como uma figura cômica de um trabalhador. No entanto, quando Dickens descreveu Doyce, a maior parte de seus leitores conheciam alguém como ele. Assim como Shakespeare não poderia ter imaginado Doyce, nós também não podemos imaginar que tipo de ser humano a sociedade irá produzir uma vez que a economia deixar de ser tão central em nossas vidas. Mas, podemos ver suas formas prefiguradas na vida de vários jovens pelo mundo quebrando as barreiras do século 20 sobre sexualidade, trabalho, criatividade e o próprio ser.

O modelo de agricultura feudal encontrou um obstáculo, inicialmente, nos limites do meio ambiente e depois, em um choque externo muito maior — a Peste Negra. Depois disso, houve outro obstáculo, o choque demográfico: poucos trabalhadores no campo, o que elevou pagamentos e fez o antigo sistema feudal impossível de se aplicar. A escassez de mão de obra também forçou inovações tecnológicas. As novas tecnologias que sustentaram a ascensão do capitalismo mercantil foram o que estimulou o comércio (impressão e contabilidade), a criação de riqueza comerciável ​​(mineração, bússola e navios rápidos) e produtividade (matemática e o método científico).

Presente durante todo esse processo estava algo que parece incidental para o velho sistema — dinheiro e crédito — mas que estava destinado a se tornar a base do novo sistema. No feudalismo, muitas leis e costumes eram formados justamente em ignorar o dinheiro; crédito era, no ápice do feudalismo, visto como pecado. Então, quando o uso do dinheiro e crédito atravessou fronteiras e começou se tornar um sistema de mercado, pareceu como uma revolução. Então, o que deu energia ao novo sistema foi a descoberta de uma fonte virtualmente ilimitada de riqueza livre nas Américas.

A combinação de todos esses fatores fez com que um grupo de pessoas que era marginalizado durante o feudalismo — humanistas, cientistas, artesãos, pregadores radicais e dramaturgos boêmios como Shakespeare — fosse encabeçado nessa transformação social. Em momentos cruciais, embora timidamente a principio, o Estado foi do ponto de impedir a mudança até o ponto de promovê-la.

Hoje, o que está corroendo o capitalismo, mal racionalizado por economistas tradicionais, é a informação. A maioria das leis que a abrangem definem o direito das corporações de armazená-la e o direito do Estado de acessá-la, sem levar em consideração os direitos humanos dos cidadãos. O equivalente da mídia impressa e do método cientifico é a tecnologia da informação e suas repercussões em todas as outras tecnologias, desde genética até saúde, da agricultura até o cinema, onde está rapidamente reduzindo custos.

O equivalente moderno da longa estagnação do fim do feudalismo é a estagnação do avanço da terceira revolução industrial, em que ao invés de rapidamente automatizar trabalhos que não fazem mais parte da realidade, nós estamos fadados a criar o que David Graeber chama de “empregos de merda”5 com baixa remuneração. E muitas economias estão estagnadas.

E qual o equivalente a novas formas de riquezas livres? Não são exatamente riquezas: são as “externalidades” — os itens livres e bem estar gerados pela nova forma de interação. É a ascensão da produção fora do mercado, da informação que não é propriedade de ninguém, das redes peer-to-peer e dos empreendimentos sem gerência centralizada. A internet, como diz o economista Yann Moulier-Boutang, é “tanto o navio quanto o oceano” quando se trata do equivalente moderno de descoberta do Novo Mundo. Na realidade, ela é o navio, a bússola, o oceano e o ouro.

Os obstáculos externos do mundo moderno são claros: crise energética, mudanças climáticas, envelhecimento de populações e imigração. Esses problemas estão alterando a dinâmica do capitalismo e tornando-o inviável em longo prazo. Eles ainda não tiveram o mesmo impacto que a Peste Negra — mas, como vimos em Nova Orleans em 2005, não é preciso uma peste bubônica para destruir a ordem social e infraestrutura em uma sociedade financeiramente complexa e empobrecida.

Uma vez entendida a transição, a necessidade não é um Plano Quinquenal6 supercalculado — mas um projeto que mire em expandir as tecnologias, modelos de negócios e comportamento, e que dissolvem as forças do mercado, socializam conhecimento, erradicam a necessidade de trabalho e empurram a economia em direção à abundância. Chamo-o de Projeto Zero — porque o objetivo é um sistema de energia zero-carbono; produção de máquinas e produtos e serviços com custos marginais a zero, e a redução de tempo de trabalho necessário o mais próximo possível de zero.

A maior parte dos esquerdistas do século 20 acreditavam que não tinham o luxo de uma transição controlada: eles acreditavam que nada na chegada de um novo sistema poderia coexistir com o antigo — embora a classe trabalhadora sempre ter tentado criar uma vida alternativa “apesar” do capitalismo. Como resultado, uma vez que a possibilidade de uma transição no estilo soviético desapareceu, a esquerda moderna ficou preocupada simplesmente com as coisas opostas: a privatização do serviço de saúde, as leis anti-sindicais, fracking7 — a lista continua.

Se eu estiver certo, o foco mais lógico dos apoiadores do pós-capitalismo é criar alternativas dentro do sistema; usar o poder governamental de uma maneira radical e disruptiva e direcionar todas as atitudes em direção à transição — e não na defesa de elementos aleatórios do velho sistema. Precisamos aprender o que é urgente, e o que é importante, e que, às vezes, nem sempre os dois coincidem.

O poder da imaginação se tornará crucial. Em uma sociedade da informação, nenhum pensamento, debate ou sonho é desperdiçado — seja concebido em um acampamento, cela de prisão ou em volta de uma mesa de pebolim em uma startup.

Como acontece com a manufatura virtual, na transição para o pós-capitalismo o trabalho feito na fase de desenho inicial pode reduzir erros na fase de implantação. E o desenho do mundo pós-capitalista, assim como seu software, é modular. Pessoas diferentes podem trabalhar em lugares diferentes, em diferentes velocidades, com relativa autonomia. Se eu pudesse trazer uma coisa para a existência seria uma instituição global que modelou o capitalismo corretamente: um modelo open-source de toda a economia, oficial, cinza e preto. Todo experimento executado através dele seria enriquecido, seria open-source e com tantos data-points como os mais complexos modelos climáticos.

A principal contradição hoje é entre a possibilidade de bens e informação livres e abundantes; e o sistema de monopólios, bancos e governos tentando manter tudo privado, escasso e comercial. Tudo se resume à luta entre a rede e a hierarquia: entre as velhas formas de sociedade moldadas em torno de capitalismo e novas formas de sociedade que prefiguram o que vem a seguir.

É utópico acreditar que estamos à beira de uma revolução para além do capitalismo? Nós vivemos em um mundo em que homens e mulheres gays podem se casar, e que a contracepção fez, em um espaço de 50 anos, a mulher comum da classe trabalhadora mais livre que a mais louca libertina da era de Bloomsbury. Por que, então, achamos tão difícil imaginar liberdade econômica?

O poder da imaginação se
tornará crucial. Em uma sociedade
da informação, nenhum pensamento,
debate ou sonho é desperdiçado —
seja concebido em um acampamento,
celade prisão ou em volta de uma
mesa de pebolim em uma startup

São as elites — isoladas em suas limousines escuras — cujo projeto parece desprezado como as seitas milenaristas do século 19. A democracia de tropas de choque, os políticos corruptos, os jornais controlados por magnatas e o estado de vigilância parece tão frágil e falso como a Alemanha Oriental de 30 anos atrás.

Todas as interpretações da história humana têm que permitir a possibilidade de um resultado negativo. Ele nos assombra nos filmes de zumbi, nos filmes de desastres, nos filmes de cenário pós-apocalíptico como “A Estrada” e “Elysium”. Mas, por que não deveríamos formar uma imagem da vida ideal, construída a partir de informação abundante, trabalho não-hierárquico e dissociação de salário e trabalho?

Milhões de pessoas estão começando a perceber que a elas foram vendidos sonhos em desacordo com a realidade. Sua resposta é raiva — e refugiar-se em formas de capitalismo que podem apenas despedaçar o mundo. Ver isso emergir, das facções de esquerda pro-Grexit no Syriza até o National Front e o isolamento da ala de direita americana, tem sido como assistir os pesadelos que tivemos durante a crise dos Lehman Brothers se tornando realidade.

Precisamos mais do que apenas um punhado de sonhos utópicos e projetos em pequena escala. Precisamos de um projeto baseado na razão, evidência e designes testáveis, que vá na contramão da história e seja sustentável para o planeta. E precisamos fazê-lo acontecer.

Este texto é uma tradução e adaptação do original escrito por Paul Manson (@paulmasonnews), no Guardian

1 Time-bank: banco de horas

2 Commons: são recursos possuídos e compartilhados por uma comunidade de indivíduos denominados commoners. É um termo da área da economia, sem tradução para o português, tradicionalmente utilizado para designar recursos naturais — como florestas, rios, e atmosfera. Porém, desde a década de 90, o conceito tem sido revisitado e ampliado para abranger recursos informacionais ou digitais — como softwares e a própria Internet.

3 Peer-production: Produção colaborativa baseada em recursos comuns (commons). Novo modelo de produção socioeconômica em que um grande número de pessoas trabalha de forma colaborativa (geralmente através da Internet).

4 Peer-to-peer: arquitetura de redes de computadores onde cada um dos pontos ou nós da rede funciona tanto como cliente quanto como servidor, permitindo compartilhamentos de serviços e dados sem a necessidade de um servidor central. As redes P2P podem ser configuradas em casa, em empresas e ainda na Internet. Todos os pontos da rede devem usar programas compatíveis para ligar-se um ao outro. Uma rede peer-to-peer pode ser usada para compartilhar músicas, vídeos, imagens, dados, enfim qualquer coisa com formato digital.

5 Empregos de merda (bullshit jobs), o autor se refere a subempregos, que não necessitam um grande nível educacional.

6 Plano Quinquenal (Five-year plan): Os planos quinquenais foram um instrumento de planificação econômica implantado por Stalin na antiga União Soviética, com o objetivo de estabelecer prioridades para a produção industrial e agrícola do país para períodos de cinco anos.

7 Fraturamento hidráulico (Fraking) é um método que possibilita a extração de combustíveis líquidos e gasosos do subsolo. Também é denominado fratura hidráulica, estimulação hidráulica ou fracking. Nota de tradução: Quem criou esse nome provavelmente não assistia Battlestar Galactica.