AGOSTO, MÊS DE SAUDADES.

Ela era uma mulher muito especial. Nascida em 35, estudou um pouco mais do que a média das mulheres da sua geração. Trabalhou, casou-se não muito jovem e com um homem mais jovem que ela, ousadia para uma mulher dessa época. 
Foi viúva cedo também, por volta dos 50 anos e depois disso cuidou da própria vida, do próprio dinheiro, do próprio trabalho e da família. Foi assim que ela me ensinou a ser independente.

Ela nunca passou um período da vida sem falar do seu amor com carinho. Eu acho que era um daqueles encontros que duram para sempre, sabe. Que vão até o além, não foi atoa que eles se encontraram mesmo, exatamente num dia que seria muito especial para os dois. Foi assim que ela me ensinou a acreditar no amor genuíno.

Ela cuidou de mim. Sempre colocou educação na frente de qualquer outra coisa. Aos 5 anos ela me ensinou a ler e fazer conta “de mais”, depois, já mais velha, perto das provas ela estudava comigo e me tomava as lições. Para qualquer dúvida ela consultava o livro 15 da Barsa, e assim sabia um pouco de tudo, falava de qualquer assunto com muito mais profundidade do que a gente que tem o Google ao alcance das mãos . Todas as brincadeiras com ela eram educativas e foi assim que ela me ensinou que sabedoria, ninguém nunca tira da gente.

Ela dizia que não existe uma pessoa pouco honesta ou muito honesta. E para exemplificar, quando eu era criança ela dizia: não se pega de ninguém nem uma televisão, nem uma agulha. Uma vez, quando eu era muito pequena, comi um doce numa loja que entramos. Quando ela viu, me levou para pedir desculpas e pagar pelo produto. Foi assim que ela me ensinou o que é caráter.

Ela não gostava de maquiagem, mas jamais saía sem arrumar o cabelo, sem a roupa muito bem passada e combinando. Ela dizia que não importa o valor que você pagou pelo que veste, mas sim o quanto investiu em cuidar daquelas peças. Foi assim que ela me ensinou o que é simplicidade.

Ela nunca nos deixava comer algo sem dividir. Nós tínhamos que dividir os brinquedos: “cada um brinca um pouco” e “vamos brincar primeiro do que um quer e depois é sua vez”. e assim ela me ensinou a compartilhar.

Eu a vi algumas vezes dando pratos de comidas a pessoas que passavam em casa pedindo. A vi juntando coisas para dar a pessoas que ela sabia que necessitavam. Assim ela me ensinou que quanto mais a gente doa, mais feliz a gente é.

Então eu cresci, eu achava que sabia de tudo. Ela compreendia os momentos da adolescência e sem brigar me ensinou que eu ainda tinha tanto a aprender.

Me ensinou que não é fácil lidar com problemas e que não adianta fugir deles, mas que eles vão passar. Acho que também foi com ela que aprendi que nenhuma situação é eterna, nem de alegria e nem de tristeza… e com certeza foi com ela, que quase nunca reclamava, que aprendi reclamar é que não resolve nada.

Com ela aprendi que mão estendida é infinitamente melhor do que dedo apontado.

Com ela aprendi gratidão. E como sou grata por tanto que aprendi.

Também foi com sua ausência que aprendi o que é a saudade. E assim também aprendi, que no fim de tudo, somos apenas as lições que deixamos e a diferença que fazemos na vida de quem amamos.

Obrigada, vó. Ainda estou aprendendo.

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