Deixei as unhas crescerem e pintei de vermelho

(Foto: Pexels)

Deixei as unhas crescerem. Após meses, finalmente notei que deixei as unhas crescerem. Foi bonito perceber a vida exalando pelo corpo, ver uma parte de mim que não desiste apesar do cansaço, dos golpes baixos. Meio tortas, afiadas e sem cor, elas ganharam o mundo como um sinal de alívio. Trégua para a nebulosidade de uma rotina tomada pelas curvas que a vida desenha mas não registra em mapa nenhum.

Os medos vão afrouxando o aperto nos braços, a dor no coração. O nervosismo com o instante seguinte se perde no barulho do trânsito, é engolido pelo calor das horas. Que bom! Reclamar do clima quente é mais saudável que sofrer por antecipação. No embalo da distração, o gás venenoso da ansiedade se reverte no oxigênio poderoso da leveza. A cada retomada de fôlego, volto a respirar a liberdade que havia sido roubada. Vou me pertencendo outra vez.

A luta diária para retomar a confiança em mim e nas possibilidades do mundo trouxe bons frutos: tenho caminhado com suavidade nesses últimos dias. Para cada nova-antiga descoberta, uma vibração. A roupa não sufoca mais, o sorriso está menos burocrático e a mente voltou a se permitir estradas melhor iluminadas. É como tirar a poeira do espírito para recuperar a energia do corpo.

No processo de re-conhecer minha própria liberdade, busco recuperar memórias construídas ao longo da vida e encarar um horário diferente do ônibus ou caminhar do lado esquerdo da rua. É, o medo ainda calça os pés das tentativas. Algumas vírgulas sombrias ainda precisam ser apagadas, mas voltei a sorrir sem pensar nos próximos medos. Que presente!

A alegria aquece o sentimento de vida. Quero todas as minhas gargalhadas de volta. E quero outras mais. Porque “a felicidade é uma arma quente”, e é com ela que vou trocar a palidez dos dias pelo vibrante da luz. Hoje pintei as unhas de vermelho porque, finalmente, voltei a me colorir por dentro.