[A vida dos pés]

A vida cansativa dos pés

é dia. Parece noite mas é dia. O sereno caiu e deixou de brinde uma névoa densa sobre os matagais. Os pés cansados quase zumbis seguem rumo ao destino diário. Os passos andam em um mesmo ritmo. Estão fadados ao automático. Anos, meses e dias executando o mesmo destino diariamente. Se fossem autônomos não errariam o caminho jamais.

Alguns de meias e tênis. Outros de chinelos. Estes carecem de cuidados urgentes. Creio ser os mais castigados. Como se os pés merecerem “condicional dos pés”. Seus maiores crimes foram não suportar seus donos ou a rebeldia dentro dos sapatos apertados.

Pisei forte: Tum! E dei um “bom dia” automático ao motorista do coletivo. Tanto a minha alma quanto a dele pareciam ter ficado em nossas casas. Mas os pés estavam ali valentes para mais um dia de trabalho pesado. pisa, corre, anda e pula. para frente e para trás.

As obrigações são praticamente robóticas. Toc! ploft! Fico na ponta dos pés para alcançar um objeto lá no alto. Dou um pulinho para alcançar outro. Fazer isso, depois aquilo, depois voltar e lá estão eles (os pés) seguindo suas tarefas. Muitas passadas. Vez em quando lembro-me da sua existência não tão cedo, para o final de tudo, do dia.

Mais ou menos cinquenta passadas até o ponto de ônibus. Os dedinhos falam: vamos, rapidinho! Ta chegando! Nem imaginavam que iriam correr. Tum! Tum! Tum! Mais rápido. Quase perdemos o ônibus. Ufa! Agora podemos descansar um pouco até em casa.

O dia todo na horizontal. Agora posso vê-los. Ao longe parecem sorrir e relaxar depois de um dia inteiro espremidos dentro dos sapatos. Sejam momentaneamente felizes Srº pés. Aproveitem as poucas horas de descanso. Amanhã voltaremos à escravidão da rotina.

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