O Nome Retirado

Ilustração: Sebba Cavalcante

Foi uma biblioteca que me ensinou, pela primeira vez, a vida e a morte nas cidades.

O lugar funcionava numa pequena sala, localizada no térreo de um edifício comercial em Campina Grande. Me recordo da proprietária, Ana Albertina e do quando ela gostava, por exemplo, de charutos e livros esotéricos. Gargalhava de peito aberto e com frequência. Não sei se a reconheceria hoje em dia. Puxo seu rosto pela memória e me aparece mais a sua presença de espírito, do que suas feições.

Eu virei sócio do Cantinho aos nove anos de idade e loquei livros intensamente até os doze. Chegava lá, conversava com Ana Albertina e Normando, o único funcionário da biblioteca, enquanto passava um tempão folheando livros de Monteiro Lobato, Ana Maria Machado, Sylvia Orthof, Marcos Rey, Ruth Rocha, Ziraldo, Pedro Bandeira, Stella Car, Marçal Aquino, João Carlos Marinho, entre tantos outros. Recordo agora, também, das capas dos tantos livros de contos de fadas, assim como das capas das obras nas quais mitologias gregas, egípcias e brasileiras são recontadas; livros maravilhosos, com seus monstros e metamorfoses e cosmologias e heróis. Até hoje procuro uma coleção de livros específica, que me fascinava na época, cujas histórias eram inspiradas nas Mil e uma Noites.

Após escolher os livros, eu os colocava na sacola de papelão fornecida pelo próprio Cantinho e seguia para casa, onde lia, com uma liberdade que nunca mais tive, até dormir. Páginas e páginas foram escritas sobre o quanto é impossível repetir o impacto, a intensidade, a força das nossas leituras de infância. É tudo verdade. Nunca mais encontrei, no que leio na assim chamada “vida adulta”, aquilo que me agitava nas leituras infantis. Enquanto luto hoje em dia para compor, com muita dificuldade, alguma nova narrativa, ou quando dou aulas de literatura e produção textual, acho que parte de tudo isso é uma tentativa minha de retomar o fio daquelas leituras todas. Adoraria voltar àqueles labirintos, às noites coerentes – noites de leitura.

Sempre acho engraçado quando me dizem: “a vida não se aprende nos livros”, como se por dentro mesmo da própria rua não estivéssemos o tempo todo lendo placas, sinais, rostos. Os próprios lugares por onde nos deslocamos e vivemos, embora não sejam encadernados em capa dura e impressos com papel, dificilmente nos respeitam se não nos dispomos a decifrá-los e recontá-los.

Digo isto porque um dos meus maiores desafios como leitor não foram, sei lá, páginas de João Guimarães Rosa, Osman Lins, ou da mais intrincada filosofia, mas sim a grade de ferro que encontrei cerrando a saleta onde o Cantinho funcionava. Eu já estava na adolescência e há anos não frequentava mais a biblioteca. Quando soube, por amigos, do seu fechamento por problemas econômicos, lamentei, mas não senti abalos imediatos com a notícia. Mesmo assim, por curiosidade, dias depois decidi passar por lá. É que, mesmo não sendo mais sócio daquela biblioteca, sua existência me dava uma satisfação semelhante àquela sentida quando colocamos a última pecinha no espaço vazio de um quebra-cabeças montado sobre a mesa.

Ao chegar, lá estavam as grades de ferro. Acima delas, um espaço vazio, o nome recém-retirado da biblioteca. Me mantive em pé por alguns instantes, tentando decifrar o que nem mesmo sabia sentir. Aquele seria o meu primeiro lugar desaparecido.

Sempre que as cidades nas quais vivi me parecem arruinadas (e hoje vivo em São Paulo, a ruína e delírio por excelência da contemporaneidade brasileira), minha memória resgata este pequeno episódio. Não para me torturar ou conjurar qualquer tipo de autopiedade, mas sim para me lembrar o quanto somos um corpo que se projeta pelos espaços através de diferentes relacionamentos e imaginários.

Não pisamos apenas onde nossos pés se posicionam. Pelo contrário, estamos espalhados pelos lugares que fazemos acontecer e que conosco acontecem.

*Texto publicado originalmente na revista Vacatussa #7. A ilustração desta postagem também foi publicada originalmente na revista.