O poder da biometria

Há algum tempo atrás a prefeitura de Salvador e o SETPS tentaram implementar um sistema de biometria pra identificar os usuários do Salvador Card nos ônibus da cidade. Em algum momento no início da aplicação de tal sistema eu escrevi um texto afirmando que a biometria não funcionava e nem iria funcionar, e assim aconteceu. Quer dizer…nesse momento podemos questionar o que quer dizer funcionar. Os aparelhos não funcionavam tecnicamente, porém a maioria das pessoas que usavam o cartão de outra pessoa, deixaram de usar por medo da vigilância da biometria. Então…parece que o sistema cumpriu seu papel.[1] Funcionou muito bem como mecanismo de controle pra fazer as pessoas se sentirem vigiadas.

No começo desse ano, me deparei novamente com uma querela relativa à implantação de um sistema de biometria, só que dessa vez num caso muito mais sério. O reitor do Instituto Federal da Bahia resolveu que todos os servidores do instituto deveriam utilizar um dos dedos para bater o ponto e provar sua estada na escola. Bom…à primeira vista não haveria nada demais em cobrar que o servidor esteja no seu local de trabalho. Porém, analisando um pouco a situação, surgem inúmeros problemas. Aqui, irei me ater à questão do docente[2]. É sabido que metade da carga horária do professor se dá fora da sala de aula para preparação, correção etc. Sendo assim, por que um professor fora do horário de aula deve permanecer na escola? Qual a vantagem de manter professores presos na escola? Isso, por acaso, faria com que melhores aulas fossem preparadas? Obviamente, nenhum ganho pedagógico pode ocorrer disso e é claro que a reitoria sabe disso.

A escola sempre funcionou como um órgão disciplinador da sociedade onde os alunos devem ser submissos, obedientes, dóceis e, sobretudo, heterônomos. A escola nunca foi lugar de liberdade, imaginação e autonomia. Essas questões, entretanto, não são nenhuma novidade. O que percebemos de novo é que o professor também não possui liberdade nesse esquema. Desde os professores punidores até os novos professores que seguem a cartilha tecnicista contemporânea que treina os alunos para os exames como ENEM, todos eles (nós) possuem um papel num script a cumprir, e esse papel não permite muita improvisação.

Agora, com a biometria, o controle sobre o professor atinge níveis inimagináveis. Nesse cenário o professor é “observado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, cercado, doutrinado, admoestado, controlado, avaliado.”[3]

Assim como a biometria do ônibus de Salvador, o sistema biométrico do IFBA também não funciona. Aqueles que estão usando relataram diversos problemas e de fato esse não é o melhor sistema de controle de frequência. Mas, assim como no caso do ônibus, ele atinge seus fins, que é controlar pelo medo.

Tudo que a reitoria quer é que o servidor fique com medo, sentindo-se vigiado e controlado e mais que isso, se sentido derrotado por não conseguir barrar essa excrecência. Infelizmente eles estão conseguindo. Talvez se seguíssemos os exemplos dos alunos essa história poderia ter um desfecho diferente. Mas, para tal, precisamos primeiramente entender a nossa posição na escola, entender que essa ofensiva que estamos sofrendo é uma ofensa contra nossa dignidade e liberdade. Somente quando percebermos que não temos liberdade é que poderemos lutar por ela.

[1] Hoje em dia não há mais biometria nos ônibus. Tudo indica que foi uma campanha com prazo determinado pra terminar. Um susto pra aliviar o número de pessoas que usavam cartões de terceiros.

[2] Não irei tocar na questão dos técnicos administrativos por falta de informação.

[3] Proudhon, “Ser governado”.

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