memórias do passado I

22.08.2016

Na baía do Seixal

Ainda não deixei o meu país e já estou a morrer de saudades do mesmo. Só o pensamento em si — o de sair de casa — deixa-me densamente nostálgica, apavorada, assustada. Ainda não me habituei à ideia. Já está tudo decidido. O investimento está feito. Não há volta a dar.

Porém, isto não me impede de imaginar cenários diferentes — e se eu decidisse ficar?, e se eu recusar deixar atrás tudo o que me é conhecido e querido?… — eu sei que não vale a pena. Eu sei que foi uma decisão minha, com o apoio incondicional da minha família. Eu sei que é pelo meu bem, por um futuro melhor com mais portas e oportunidades.

Eu sei disso tudo.

Contudo, é ainda muito, mas muitíssimo difícil absorver tudo isto. Espero que este sentimento seja temporário e que saia de mim o mais rápido possível, porque, por vezes, é verdadeiramente insuportável. Engole a minha pessoa, torno-me distante; a nostalgia, o medo, a ansiedade, tudo isso me invade…

Quero começar, da melhor maneira possível, este capítulo.

Espero que corra tudo bem.

Senão, olha, aguenta.

Hás-de ficar bem.


Presente — 12.07.2017

a minha cidade nova, algures em Birmingham

Foi um pouco estranho ter lido as palavras anteriores…não sei porquê. Sinto que não foi a mesma pessoa que escreveu, apesar de eu ter sido a autora dessas palavras.

É incrível como o tempo passa e como as pessoas mudam.

Esse medo que revelei no ano passado — não existe mais. Dissipou-se por completo. Eu estou bem neste momento, e sim, apesar de sentir saudades, já me habituei à ausência das pessoas que sempre me rodearam no meu dia a dia, na minha velha rotina.

Aprendi e mudei imenso estando num lugar novo e vivendo com pessoas desconhecidas. Tem sido uma oportunidade incrível para eu estar desconfortável nas situações que me eram estranhas e novas se tornarem confortáveis. Considero este método como sendo a única maneira de aprender e de ganhar a capacidade de adaptação.

Portanto, as mudanças que ocorreram em mim foram naturais. Não foram forçadas nem nada disso. Ao estar num ambiente desconhecido, adaptei-me ao meu ritmo. Dei tempo a mim mesma para conhecer todos os cantos, observando novos lugares, não tendo receio em participar. Aliás, eu aproveitei cada oportunidade que apareceu para conhecer pessoas novas ou para expôr-me em situações novas. Não sobreviveria sem o Google Maps e a minha insistência pessoal em experienciar tudo.

E tudo isso contribuiu para a formação da pessoa que sou hoje: uma pessoa mais confortável consigo mesma, sem medo de desafios ou novas circunstâncias. Sinto que cresci imenso, tornando-me numa pessoa mais responsável e consciente. Eu sei que conseguirei adaptar-me.


Contexto: Mudei-me para o Reino Unido em Setembro de 2016 para estudar na Universidade de Birmingham.