
E aí, já te descobriu?
Dia desses me deparei com essa frase: “E aí, já te descobriu?”, dita por uma amiga relatando uma conversa que teve. E imediatamente acabei me afastando da conversa que vinha tendo e fui levado para a frase e o que ela carrega consigo. Impossível não pensar na palavra “descobrir”, que pode também, para facilitar, ser escrita assim: (des)cobrir. Gosto das palavras.
É incrível o movimento que as pessoas fazem em busca de si mesmo. Ou melhor: é incrível o movimento que fazemos em busca de nós mesmos. Ideal mesmo era escrever: É incrível o movimento que faço em busca de mim, mas para o texto não ficar tão autosuficiente, vou me permitir compartilhar as buscas com quem sentir-se convidado a isto. Vamos com o nós. É incrível o movimento que fazemos em busca de nosso eu.
A busca de si talvez seja a maior de todas as jornadas que o humano se propõs desde sempre, desde quando se reconhece como sujeito, como individuo. De novo palavras: (re)conhecer — conhecer novamente, conhecer mais uma vez, conhecer a si, saber o eu. Buscar a si talvez seja uma jornada mais intensa que buscar outros lugares, outras estradas, outros mundos até mesmo. Até porque cada eu carrega consigo um mundo incrivelmente vasto. Buscar o mundo interior é, então, uma jornada onde até pode ser previsto o primeiro passo, mas jamais poderemos saber quando e onde esta busca irá terminar ou nos levar.
(Des)cobrir. Tirar o que está cobrindo. Revelar. Vivemos em um contexto onde as pessoas se escondem inclusive de si mesmas através de discursos de vidas vazias, através de ilusões de postagens e curtidas, através de uma certa imposição de felicidade, por mais que seja uma felicidade tão superficial que qualquer vento a abale. A vida quase não mais é vivida, ela é registrada, postada, seguida, curtida, mas não vivida. Não é mais sentida. A vida virou substantivo. O Viver verbo não é mais feito. O viver está sucumbindo perante a imagem da vida bela. E assim, nos escondemos atrás da imagem criada de nós mesmo. Uma imagem que tem apenas a intenção de mostrar um eu que não existe para um outro eu que também não existe em si, e também não está verdadeiramente interessado no viver real de quem que seja, nem de si mesmo. É um mundo de ilusão. Um mundo substantivo, que até dá nome, mas não faz ação, não faz verdade, não é verbo.
Mas então a pergunta: “E aí, te descobriu?” traz consigo a evidência de uma ambivalência social. Ao mesmo tempo que as pessoas se afastam de si, habitam uma existência que não carrega o viver, existe uma busca pelo seu EU. Fujo de mim, escondo-me de mim, mas carrego um discurso de que estou cotidianamente buscando me descobrir. E por ser uma ambivalência, evidencia também que as pessoas carregam uma valência, uma força, uma energia que a coloca em busca de si. E ao buscar o seu eu, nos permite sonhar, acreditar que as pessoas (todos os eus, inclusive este que aqui escreve) ainda tem em si um sopro de Viver, um sopro de identidade, um sopro de coragem para SER.
E aí, já te descobriu? Já te descobriu enquanto sujeito? Já te descobriu enquanto ser, único? Já te descobriu enquanto inteiro e integrado a um mundo que vive e respira vida a todo instante? Já te descobriu enquanto uma pessoa que sente? Já te descobriu enquanto alguém que carrega consigo a capacidade de Fazer? Já te descobriu enquanto alguém capaz de inquietar-se inclusive com uma simples pergunta sobre a existência?
