O discurso Childfree e seu ataque à criança

Qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual concordará que ter filhos e constituir uma família sempre foi o itinerário mais natural para um indivíduo adulto. Não fosse assim, talvez a espécie humana já tivesse desaparecido da face da terra. Por outro lado, numa época em que a contracepção é acessível a todos, tornar-se pai ou mãe passa a ser uma decisão de foro íntimo. Aliás, penso mesmo que quando uma mulher ou um homem não se sentem capazes de assumir a responsabilidade de cuidar de uma criança, é melhor que evitem conceber filhos.

Meu objetivo nesse texto não é, portanto, discutir essa escolha. E, muito embora eu seja uma entusiasta da vida em família, e creia que nenhuma experiência tem maior potencial de elevar o nosso patamar existencial do que a de cuidar de outra pessoa desde o seu nascimento até a maturidade, também não vou me alongar aqui fazendo o elogio da parentalidade. O assunto desse artigo é perturbador demais para admitir rodeios, e por isso vou direto ao ponto. Quero compartilhar com você, leitor, a minha preocupação com a expansão de um movimento que se autointitula Childfree e promove, direta ou indiretamente, um discurso de ódio às crianças.

Eis o modo mais neutro e benevolente de descrever esse movimento. Ele agrega redes de pessoas, casadas ou solteiras, que optaram por não ter filhos e querem compartilhar sua experiência. Está presente em vários países, inclusive no Brasil, mas, ao que me consta, é particularmente expressivo nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Existe desde os anos 1970, mas teve sua escala ampliada com o advento da rede mundial. Nesse ponto, o leitor deve estar se perguntando por que motivo uma pessoa que não quer ter filhos precisa fazer parte de uma rede ou de um movimento.

A decisão de não ter filhos, suponho, deve envolver, em algum nível, e em certas circunstâncias, sensações de angústia, isolamento, inadequação. Vendo por esse ângulo, não é difícil compreender que algumas pessoas precisem de redes de apoio emocional para o compartilhamento de experiências e informações. Redes que diluam a radicalidade de sua decisão, e que as façam se sentir mais confortáveis diante dela. Porém, na verdade, a motivação do movimento Childfree transborda a questão da escolha e da afirmação de um estilo de vida. Ela vai muito além, como já indica, de saída, o seu próprio nome. Seus militantes não gostam de ser chamados “childless” porque, segundo alegam, esse termo sugere uma falta, uma carência, algo como uma deficiência. Ou seja, não basta a liberdade de decidir não ter filhos. Eles precisam se convencer de que essa seria a opção mais razoável.

Mas o deslizamento semântico que ocorre na mudança de “childless” para “childfree” não é inocente, e muito menos inofensivo. Ele traz embutido um juízo de valor. Para dotar a decisão de não ter filhos de uma conotação positiva, a negatividade é deslocada para o lado da criança. Ela é tratada como algo de que é preciso e urgente se livrar. Em inglês, o sufixo free é usualmente precedido por um substantivo que tem valor contextual negativo: fat-free, duty-free, care-free, e assim vai. Ou seja, o movimento Childfree, já em seu nome, coloca a criança na berlinda, transformando-a em um problema a ser evitado, um peso de que é preciso se desobrigar, um incômodo que deve ser descartado. A criança é objetificada e tratada como um estorvo.

Eu não estaria aqui escrevendo esse texto se tudo se resumisse a tornar a decisão de não conceber filhos legítima e auto justificada no nível pessoal. Cada um sabe de si, de seus limites e necessidades. Isso não é problema meu. Mas não me restam dúvidas sobre o caráter nefasto desse movimento. O mínimo que podemos dizer é que ele fornece contexto para a produção de um discurso de intolerância e ódio às crianças. 
 
Se fizermos uma busca do termo “childfree” no Facebook, vamos nos deparar com grupos e páginas em que aparecem memes com textos do tipo:

“É sempre bom se livrar daquilo que não te deixa viver e é um peso inútil nas tuas costas.”

Diálogo entre mãe e filho. Menino chama: “Mãe…” A mãe responde: “Vejo você no inferno, seu merdinha.”

“Seu filho, seu carma.”

“ As crianças são um substituto patético para aqueles que não podem ter animais.”

Pode-se argumentar que há de tudo no Facebook, até coisas mais perversas, e que não precisamos levar isso tão a sério. Ok. Então vamos prosseguir.
Em uma busca no site da Amazon, obtive cerca de 200 resultados, por exemplo, o livro de uma psicanalista suíça chamada Corinne Maier, que se intitula “No Kid: quarenta razões para não ter filhos” (2009). As razões listadas se apoiam, como não poderia deixar de ser, no individualismo, no cinismo, no materialismo e no hedonismo que grassam em nossa era. Mas não vou entrar no argumento em si. Quero apenas chamar atenção para a virulência de seu ataque às crianças.

Para não correr o risco de faltar com o rigor, fui ao site da própria autora buscar o resumo do livro. Ali mesmo, encontrei a seguinte frase: “A criança é o inferno. Esse anão vicioso, e consumidor de tempo, vai sugar sua energia, esmagar o seu bem-estar potencial, e ao mesmo tempo poluir um planeta já superpopuloso.” (Tradução minha. No original: “L´enfant, c´est l´enfer. Ce nain vicieux, atrocement Bryant et chronophage, va pomper votre énergie, piétiner votre potentes de bien-être, tout en polluant allégrement une planète déjà surpeuplée.”)

Esse livro foi best-seller na França. Ou seja, não estamos mais diante de uma comunidade-gueto do Facebook, e sim de um discurso de amplo alcance. Mas ainda não paramos por aí. Começam a pipocar notícias de restaurantes, hotéis, festas de casamento, etc, espalhados pelo mundo, que se auto rotulam childfree. As crianças são equiparadas à fumaça do cigarro, à gordura insalubre, ao imposto que pesa no bolso do consumidor. Ou seja, as pessoas que se denominam childfree não querem apenas ter o direito e a liberdade de não ter filhos, e viver seu próprio estilo de vida. Elas rejeitam o contato com a infância de uma maneira geral, e não hesitam em afirmar que as crianças são seres nocivos.

A existência de restaurantes e hotéis reservados só para adultos não é, em si, necessariamente problemática. O que deve nos preocupar é o fato dessa iniciativa ser sustentada por um discurso de desprezo pelas crianças, cujas consequências maléficas a médio e longo prazo podemos perfeitamente imaginar. A coisa é realmente deplorável. Já se ouve falar, por exemplo, da existência de um lobby, em alguns países, e supostamente apoiado nos resultados de pesquisas supostamente acadêmicas, contrário a certos privilégios das mulheres grávidas ou com filhos pequenos (como a autorização para se ausentar do trabalho para fazer pré-natal ou levar o filho ao médico, a prioridade em filas ou estacionamentos, entre outros). A alegação é que os ditos childfree se sentem discriminados! Ou seja, enquanto nós, pais, estamos ocupados cuidando de nossos filhos, essas pessoas estão se organizando, com base numa narrativa vitimista, para que seu desprezo e seu ódio às crianças tome ares de direito civil.

Uma sociedade que não cuida de suas crianças, e não as protege, é uma sociedade doente. E pessoas que são capazes de se esquecer que um dia foram crianças são potencialmente perigosas para a sociedade. Por isso, é preciso que estejamos preparados para reagir com a prontidão que o assunto merece. Não podemos assistir passivamente à disseminação de um discurso tão desrespeitoso à infância. Mas toda atenção é pouca, pois a quem não é militante, os projetos de dessensibilização chegam sempre disfarçados em pele de cordeiro. Na mídia, por exemplo, o movimento Childfree costuma ser glamourizado, de modo a se fazer crer que a vida de seus adeptos é mais interessante do que a dos pais e mães de família.

É claro que, como ocorre com muitos movimentos políticos, há pessoas que se envolvem sem saber ao certo a que causa estão servindo. São os chamados inocentes úteis. Portanto, se você não tem e não quer ter filhos, mas tem compaixão pelas crianças e sabe que é nosso dever protegê-las de todo mal, não aceite o rótulo de Childfree. Não se deixe definir pelo ódio. Não há saída honrosa para quem ajuda a naturalizar um discurso rancoroso que faz da criança um bode expiatório. Não faça parte desse grupo.

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