Duchamp e a apropriação do cotidiano

Em 1913, com a obra “Roda de Bicicleta”, Marcel Duchamp antecipou em décadas o que viria a ser o universo de questões da arte atual. A obra que é, literalmente, o objeto que lhe deu o nome, inaugurou a proposta de readymade, ou seja, de usar, na produção da obra de arte, um objeto pronto, não construído pelo artista. Essa obra deu início a uma certa tendência da produção artística, a partir dos anos 1960, culminando no que hoje chamamos de Arte Contemporânea.

Se o modernismo girou em torno da ruptura do aspecto visual das obras (questionando a necessidade de cumprir regras de proporção e harmonia), na arte contemporânea a ruptura se concentra no uso de materiais para a composição das obras. Que materiais podem ser usados? É necessários usar materiais para caracterizar uma obra? É necessário retirar esses materiais de seu contexto original para que sejam considerados obras de arte? É preciso ter espaços específicos para receber obras de arte? As questões levantadas pela arte contemporânea estão lá, naquela roda de bicicleta ou no urinol masculino (“A Fonte”, de 1917) comprado numa ferragem qualquer e exposto por Duchamp no início do século XX.

Na contramão das obras futuristas, que exaltavam os benefícios da Revolução Industrial, Duchamp questionou o ônus dessa mudança. Em um ambiente de produção em massa, qual a relevância da singularidade e da produção manual? Com essa pergunta, a arte se apropria de um movimento da sociedade que torna mais pertinente a aquisição de objetos prontos, que coloca em xeque sua customização. Esse debate é desenvolvido com mais profundidade nos anos 1960/1970, com a ascensão da Pop Art e suas obras construídas a partir de imagens representativas das produções em massa como uma lata de sopa, uma caixa de sabão em pó ou a imagem de uma atriz objetificada pela indústria do entretenimento.

O readymade está à nossa volta. Podemos dizer que adiscussão lançada por Duchamp chega ao nosso cotidiano na medida em que desconhecemos a origem das coisas. Somos a criança que não sabe que o leite vem da vaca (e não da caixa) e o adulto que ignora a escravidão por um trás de uma roupa com preço baixo. Por que a singularidade se podemos ter a praticidade? Qual é o valor da originalidade uma sociedade onde tudo é readymade? Qual é o valor da originalidade na arte em uma sociedade que esqueceu o que é originalidade? Não sei se esses desdobramentos eram a intenção de Duchamp, mas através deles o urinol está cada vez mais presente.