O jogo no campo da arte

O campo da arte é o ambiente racional do qual a produção artística, frequentemente visceral em sua criação, faz parte. Pierre Bourdieu define o campo da arte como um espaço de jogo, um campo de relações objetivas entre sujeitos e instituições que competem entre si por um mesmo objetivo. Nessa briga, o mercado da arte cumpre um papel importante, frequentemente abarcando o resultado dessa disputa, já que é no território dele que o valor artístico ou a precificação final da obra é definida.

O mercado da arte contemporânea tornou-se um ambiente onde esse jogo ficou mais acirrado inevitavelmente refletindo a crescente competição num sistema econômico globalizado, O mercado de arte classificada, que envolve obras já consagradas historicamente, possui critérios de avaliação mais estáveis, enquanto na arte contemporânea o espaço de construção de valores artísticos possui uma gama de possibilidades de influência muito maior, considerando que ele não conta com um critério atrelado em elemento tão alicerçado quanto a “consagração da história”.

O mercado de arte começou a se expandir rapidamente a partir dos anos 1980, com a ascensão do neoliberalismo e a geração yuppie, que encontrou na produção da arte contemporânea uma fonte de investimento com potencial de altos ganhos (dado o potencial de rápida e vertiginosa alta dos preços das obras), mas com um potencial de prejuízo inversamente proporcional ao de ganhos. É praticamente uma transposição de uma mesa de apostas.

Nas décadas seguintes, acompanhando a demanda de mercado e apoiado pela fruição de informação e deslocamento facilitada pela globalização, os eventos de arte, como bienais e feiras, crescem em tamanho e quantidade. Se o mercado de arte cumpre um papel determinante no campo das artes ao estabelecer o valor artístico da obra, os eventos de arte cumprem um papel determinante no mercado da arte, facilitando a fruição, negociação, consagração e disputa que culminam no mercado.

Não apenas os eventos em si, mas todo o processo de organização dos mesmos faz parte da disputa pelo reconhecimento da curadoria. As reuniões que envolvem críticos, artistas e colecionadores criam uma espécie de socialização da obra e do nome do artista, tornando-os peças do jogo, buscando a “construção da imagem” que melhor “venda” (ou movimente) a peça.

Composto por instâncias que vão além da pretensa criação artística, envolvendo política, história, disputa social e economia, o campo da arte é inevitavelmente, afetado pelas escolhas da sociedade e suas consequências. A ascensão do neoliberalismo, a globalização e as consequências de ambos, compõem um campo da arte ao menos no que diz respeito ao mercado de arte contemporânea, num campo de jogo onde as peças estão em constante movimento.

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