A princesa da esperança
Uma gota de água fresca na garganta depois de uma longa caminhada sob o Sol

Sabe quando uma gota de água fresca toca a sua garganta depois de uma longa caminhada sob o Sol? Talvez você nunca tenha tido essa experiencia, mas acredito que entendeu a metáfora.
Não é surpresa ninguém o avanço do pensamento conservador no mundo, claramente influenciado pela crise que a tempos vivemos. Não que o capitalismo sobreviva sem crise, alias, é da natureza do capitalismo a manutenção da crise para sua própria estabilidade e consequentemente, o avanço conservador e fascista é sempre valorizado e em alguma instancia, incentivado por quem, de fato, lucra com o capitalismo.
O fascismo é, modo geral, uma resposta SIMPLES e BARATA para um problema COMPLEXO e PENOSO. O fascista, portanto, se comporta como uma criança que grita da vitrine com a esperança de obter o que quer.
Não é claro que cada um de nós, eu e você, não tenhamos certa medida de fascismo em nós, afinal de contas, o fascista se comporta como um animal (com todo respeito aos animais, é claro) que age em nome dos instintos primários de sobrevivência ignorando por completo toda a sociabilização construída ao longo de anos e anos de uma suposta evolução intelectual no trajeto entre primatas pelados à conquista do espaço, e essa evolução é um processo instável, o qual precisamos, ativamente, nos comprometer para não retroceder.

Mas não é sobre NeoNazis, Supremacistas Brancos e KKK de Charlottesville, nem dos NaziTropicais e Carecas do subúrbio, eleitores de Jair Bolsonaro ou qualquer um que esteja dentro desses grupo ou orbitando-os, mesmo por que, não devemos rir da doença de ninguém, não é mesmo ;). queria comentar sobre uma coisa linda que presenciei esses dias, na minha casa e que é, de fato, a gota de água fresca que citei no inicio desse texto.
A alguns dias, chegando em casa, tive a grata surpresa de me deparar com a visita de uma amiga da família, alias, duas amigas, mãe e filha, esta ultima com 3 anos de idade.
Uma festa, minha filha (dois anos) e a amiguinha, brincando, correndo pela casa, massinha, Peppa Pig, galinha pintadinha, “Tio, amarra meu sapato”, “Tio, gira a gente igual um carrossel” e coisas.
Num momento qualquer em que eu ia sair para buscar a pizza, ou por qualquer motivo que eu não lembro qual foi, em me sentei no banquinho ao lado da sapateira, na porta que dá para a rua, na minha casa, e a menininha veio até onde eu estava e disse: — Tio… A princesa, tio, dá a princesa” — Princesa? De que ela está falando? Não tem princesa nenhuma aqui… Procurei por alguma boneca, algum desenho, algum coisa com qualquer referencia a uma princesa e claro, toda essa busca foi a partir dessa minha mente, doutrinada pelo euro centrismo que estabelece o padrão PRINCESA numa mulher magra, loira e alta, completamente diferente da realidade da maioria absoluta das mulheres brasileiras, mas ela continuou: — A princesa tio…
Não preciso nem falar, você já compreendeu. A princesa a que ela se referia, não era nenhum brinquedo ou desenho, mas uma boneca de cerâmica que minha filha trouxe quando foi conhecer Recife e a menininha (ah, sim, eu não havia comentado, a menininha é negra, filha de um casa inter-racial).

Uma menina negra, identificou uma princesa negra, num autentico fruto da cultura brasileira, meu coração, latino-americano, acelerou e lagrimas brotaram no meu olho na mesma hora. Elas não se demorou por ali, minha filha deu um gritinho e ela saiu correndo pra brincarem juntas e esqueceu a princesa negra, de nariz e boca grande e com turbante na cabeça, mas colocou no meu coração a esperança que esse levante fascista é apenas o ultimo suspiro de um doente moribundo que insiste em não morrer, mas já tem os dias contados.
Daqui a alguns anos essa menina vai ser uma mulher, outras meninas e meninos negros, que aprendem que os heróis não precisam ser apenas brancos, serão homens e mulheres, pisando no pescoço desse doente moribundo, o fascismo… É apenas uma questão de tempo
