Baile de Debutante

Somos uma sociedade carente de ritos de passagem. Eu sei disso por que o Tyler sabe disso.

Ninguém pode negar que a a fronteira entre a vida infantil e a vida adulta é mais nebulosa do que nunca. Adultos se comportando como crianças mimadas que não tem compreensão daquilo que se passa para alem do circulo das suas necessidade e desejos se multiplicam aos milhares e cada vez mais é difícil encontrar a empatia, tipica de adultos maduros. Prova disso é o crescimento absurdo da mentalidade liberal na economia, aquela que aponta para uma competição desmedida sem considerar as necessidade do outro, atropelando o enfraquecido ou marginalizado, destinando-os à cadeia e aos trabalhos subalternos e com o discurso meritocrático de que “BASTA SE ESFORÇAR”, e a mentalidade conservadora nos costumes, que se opõem a tudo aquilo que afeta o status quo, tudo que é diferente é identificado como ERRADO e precisa, nessa mentalidade, ser aniquilado. Mas voltando ao assunto…

Ritos de passagem acontecem na historia da humanidade desde antes de haver historia. Nas mais diferentes culturas, classes econômicas, gêneros, distanciados pelo tempo e pelo espaço, sempre houveram esses ritos. O romper com a vida infantil e a estréia na vida adulta.

alguns eram aceitos pelos jovens como desafios reforçando a tradição enquanto outros, negados para o constrangimento da sociedade. Confirmando, aceitando e superando, os jovens são considerados os que carregarão a frente a cultura dessa sociedade, sendo aceitos pelos mais velhos, por outro lado, negando-os, rompendo e subvertendo-os, os jovens são tomados por instrumento de ruína e vetores da ação demoníaca. De uma forma ou de outra, o jovem passa de um estagio a outro e não pode mais ser visto como era antes do processo.

Desse processo floresce sua identidade, ele passa a ser alguém naquele meio, e não apenas o filho de alguém. Tomando a postura afirmativa ou negativa diante do processo não se anulará, não correrá o risco de, sumindo para a historia, assim como no texto de Ap. 3, 16, ser vomitados pela boca de Deus e esquecidos pelos registros históricos.

No passado, tínhamos uma tradição, herdada da Europa (é claro), Os bailes de debutantes

Debutante é a palavra usada para designar a adolescente que completa seus quinze anos de idade. A palavra vem do francês débutante, que significa iniciante ou estreante.
O baile de debutantes é um rito de passagem ao qual as jovens são submetidas, geralmente sendo realizado quando as mesmas completam quinze anos. Completando o décimo quinto aniversário de uma mulher, pedia-se uma linda festa de comemoração, onde ela seria apresentada oficialmente à sociedade, começando assim uma nova fase de sua vida.
A partir do seu “début”, a jovem moça passava a frequentar reuniões sociais, a usar roupas mais adultas e tinha permissão para namorar. Normalmente, na recepção dos convidados, a garota usava um vestido bonito e simples, cheio de detalhes infantis, e depois da meia noite usava um lindo vestido de gala para dançar a valsa com seu pai; tudo para representar que ela deixava de ser menina para se tornar uma mulher.
- Wiki

Não sou historiador, mas nada me tira da cabeça a ideia de que os bailes de debutantes são pura e simplesmente para apresentar para a sociedade, as meninas que se tornarão mulheres e estarão, em pouco tempo, aptas para serem boas esposas, obedientes e reprodutoras. Assim como um feirão de carros usados ou uma feira livre, as meninas eram apresentadas para seus consumidores em potencial. Radical? Talvez seja, mas talvez seja a mais pura verdade, quem saberá!?

Apesar dessa face triste e objetificante dos bailes de debutantes, eles não perdem a fator RITO DE PASSAGEM deste, apesar de considerar que hoje, o sistema o abraçou e o converteu em sistema de consumo… Os pacatos o aceitam e continuam perpetuando, os revolucionários o negam e/ou o corrompem e aqui encontramos a linha de fronteira entre a liturgia social do baile e o ponto decisivo que rompe o casulo da criança em direção à vida adulta. No caso particular do baile, o pacato (ou pacata) acaba por ser, mais uma vez, conduzida pela mão por seu pai, simbolicamente numa valsa, que o entrega para a sociedade, para que outro homem a pegue pela mão, e continue a conduzindo, numa highway infinita de infantilidade e imposição, mas discutivelmente, as meninas são aceitas no grupo dos adultos.

Pois bem… Eu também tenho uma filha, alias, tenho duas, mas apenas uma com idade de “debutar”. Minha filha foi criada com todo meu carinho, tentando dar a educação mais libertaria dentro das minha limitações econômicas, emocionais e psicológicas. Ela foi educada escutando tudo que acredito, tudo que eu prego e vendo quem eu e minha esposa somos… não somos grande coisa, mas fomos honestos com ela.

Ela fez quinze anos, e nunca houve qualquer menção de FESTA DE DEBUTANTES ou algo semelhante, mas fatalmente, aconteceu.

Ela não estava ornamentada com um vestido longo ao ao som de valsa para que todos os homens da sociedade soubessem que ela está pronta para ser uma boa esposa, pelo contrário, ela vestia o uniforme escolar ao som de palavras de ordem, em resistência a um sistema politico desumano que quer destruir qualquer perspectiva do jovem pobre no Brasil.

Minha filha foi apresentada à sociedade, mas não como a futura esposa ou reprodutora, mas como uma mulher que não vai medir consequências para lutar pelo que acredita, passando por cima de autoridade despóticas ou de colegas enfraquecidos.

Não haverá banquete na festa, pois a comida é feita por ela e por seus colegas, de maneira improvisada, apenas o necessário, para que a luta não termine. Não haverá glamour dos salões… Apenas jovens, de braços dados, lutando pelo que acreditam, gritando, desobedecendo, ocupando, resistindo…

Apresento a toda a sociedade Brasileira, minha filha, e todos os seus colegas de todas as ocupações no Paraná e no Brasil…

Apresento e desejo boa sorte, quem quiser enfrenta-los, vai precisar

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