da essência do pecado de FALAR PALAVRÃO

Baseado na inúmeras perguntas que recebo pelo ask.fm/crentassos, resolvi escrever um texto falando o motivo de que em alguns momentos eu tenha um linguajar mais “descuidado” e o motivo pelo qual eu não considero que essa linguagemm caracterize, em si mesma, um pecado ou qualquer coisa assim, sendo antes, o pecado, algo ligado à intenção e não ao símbolo

Cristiano Machado
Mar 13, 2014 · 6 min read

Antes de começar, compreenda, não trata-se de uma APOLOGIA AO PALAVRÃO, nem nada do gênero, não quero incentivar ninguém a falar de qualquer maneira, talvez até, deixar de falar de determinada maneira em determinados casos, como você verificará ao final. O texto tem como objetivo, resignificar o conceito de pecado, que aos olhos mais legalistas, está claramente definido numa lista de obrigações e proibições, ao passo que acredito que trata-se muito mais de postura e consciência.

Uma pergunta que repetidas vezes ouço é:

Falar palavrão é pecado!?

Bem… Não é assim tão fácil falar desse tema sem antes definir exatamente o que consideramos palavrão, para evitarmos a confusão de que eu entenda, por palavrão, uma coisa que você entende por outra.

Portanto, me diga:

— O quê é palavrão pra você?

No senso comum, poderiamos entender por palavrão, um signo vocal ou gráfico que representa algo que é socialmente é considerado feio. Por exemplo, a palavra “CARALHO” representa um pênis ou “PORRA” representa liquido seminal.

Caso seja apenas essa a sua definição de palavrão, tenho que alertar que, palavras que utilizamos corriqueiramente nos nossos diálogos mais corriqueiros, hoje em dia, a algum tempo atrás fariam qualquer senhora de bem ficar corada de vergonha caso ouvisse, mesmo que dita nalgum lugar fora do seu circulo de convivência. Há também o caso de que CULTURALMENTE falando, em outros lugares do mundo, muitas coisas normais pra nós são consideradas absurdas e vice-versa.

Assim sendo, tenho que considerar que “CARALHO” e “PORRA” conforme o exemplo, não são nada mais do que coisas normais que qualquer um conhece ou virá a conhecer, e sendo assim, não consigo identificar nenhum pecado a não ser, na neura característica do povo latino americano em questões que envolvem sexo, ainda mais, se levarmos em consideração o fato de este texto estar sendo lido, sobre tudo para cristãos protestantes.

Ora, A PALAVRA, não contem em si mesma, qualquer teor pecaminoso.

Entretanto, precisamos considerar que alem do significado da palavra dita (a que já concluimos, não tem nenhum pecado em si mesma) há outra maneira de utilizarmos as palavras.

Eu posso utilizar-me de alguma palavras para OFENDER ou HUMILHAR alguém, me utilizando dessa mesma cultura que supervaloriza o sexo para isso. E aí então, temos que ir com um pouco mais de calma para compreender.

Típico é dizermos “Filho da puta” ou “Viado” a aquele a quem queremos ofender (e percebeu que os dois aspectos estão ligados a sexualidade, novamente?) e se, considerando acertada a afirmação que fiz no inicio, teremos que concordar que nos termos FILHO DA PUTA ou VIADO, não encontramos nenhum pecado intrínseco à palavra, pois no primeiro, nos referimos ao filho de uma prostituta, assim como, no segundo, uma giria para identificarmos um homossexual, a não ser por nossa cultura, não haveria nenhum problema nisso, se tivessemos esse objetivo. O problema aqui é tentarmos nos utilizar de carateristas sexuais para OFENDER ou HUMILHAR alguém, como se de alguma forma, ser homossexual ou filho de uma prostituta fosse motivo para isso.

A PALAVRA que é apenas um signo, vocal ou gráfico que serve para identificar os entes, perde sua principal caracteristica e passa a ser a externalização do desejo de ofender o outro.

Agora me diga: Se o meu objetivo for ofender alguém, poderia me utilizar de palavras que não são tidas como palavrões ou TORPES como os cristãos evangelicos gostam de dizer: MAL CARÁTER ou DESCLASSIFICADO, soaria muito mais fino, mas tão humilhante e ofensivo como qualquer outro “palavrão”, não concorda? Se o meu objetivo é desqualificar ou humilhar alguém de maneira mais efetiva, tenho que usar a linguagem correta, e os mesmos termos que são usados num campo de futebol não se aplicariam num texto filosófico com o objetivo de refutar algum outro texto ou ideia.

Concluo afirmando que o problema do palavrão não está na palavra escolhida na ocasião, mas na intenção por trás dela, o intento de ofender ou humilhar é pecado, a palavra dita, em si mesma, não.

“Mas Barba, algumas palavras ESCANDALIZAM as pessoas, em especial, os cristãos”

Pois é… O próprio apóstolo Paulo fala sobre isso:

“Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos… Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize. …”

E muitos cristãos se utilizam o texto de 1 Co 8:9, para justificar que usar essa ou aquela palavra pode ser considerado pecado ou coisa assim, mas atentando um pouquinho mais ao texto, podemos verificar que, o que ele está dizendo aqui, é muito mais grave do que simplesmente proibir um determinado grupo de palavras.

Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso, teria a consciência de que, como disse a pouco, não se fala num texto filosófico como se fala num campo de futebol. Cada ambiente requer um tipo de comportamento, e o autor da carta aos coríntios apresenta a lógica de que a nossa liberdade em Cristo não pode ser uma liberdade sem responsabilidade. O homem livre precisa ter responsabilidade de tudo que faz (ou fala, neste caso) de maneira que suas atitudes não ocasione constrangimento ou mesmo o afastamento dos outros que ainda não tem a total compreensão dessa liberdade, quem ainda ignora a liberdade que apenas Cristo pode nos dar.

O texto não diz para que tenhamos de abaixar a cabeça para qualquer queixa sem fundamento que qualquer irmão na fé faça, ao longo do caminho, seja ele um experiente ou um novo na fé. No caso onde um cristãos não consegue identificar que a intenção de uma palavra não é a de OFENDER alguém, mas de demonstrar espanto ou frustração diante de algum acontecimento, prefiro acreditar que esse cristão precisa resignificar seus conceitos de PECADO de maneira mais ampla e até buscar ajuda psicológica, pois ofender-se com qualquer atitude contrária à que julgamos a ideal, como no caso do vocabulário escolhido, pode caracterizar um problema serio.

É Claro, que eu não uso palavras que socialmente são consideradas PALAVRÃO em qualquer lugar, eu tenho a delicadeza de escolher o lugar para usar cada tipo de palavra, mas quando estou entre adultos, não me importo de manifestar minha frustração com um sonoro “Mais que merda” ou meu espanto usando a palavra “CARALHO”.

Trata-se apenas de expressar sentimentos utilizando um determinado tipo de linguagem, que não é bom nem ruim em si mesmo, e não de ofender ninguém.

Mas antes de terminar esse programa, façamos um exercício:

Muitos pastores ao longo da historia da igreja, ao se depararem com a situação de uma gravidez indesejada entre um casal de namorados na sua igreja, escolhem chamar os jovens a fim de, diante de toda a comunidade de fé, confessar o seu pecado para que sejam curados. O discurso usando é carregado de um polido evangeliquês e em hipotese alguma um desses homens de Deus fala qualquer palavrão no pulpito diante desse casal. Mas sabemos que o show do horrores de expor um casal de adolecentes na igreja não tem qualquer objetivo terapeutico aos dois e trata-se muito mais de um tipo de tribunal do santo oficio que busca, na exposição destes, dar o exemplo a todos os demais, uma humilhação pedagogica travestida de cuidado pastoral. Sem nenhuma palavra de baixo calão duas pessoas são humilhadas…

Uma palavra é pior que essa situação?

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    Espiritualidade Cristã, Anarquismo, educação, filosofia, poemas, miniconto e outras bobagens que ninguém liga

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