COLÉGIO MILITAR TIRADENTES EM POUSO ALEGRE

Em 2015 o Brasil foi classificado em sexagésimo colocado no ranking de educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). À época, foram avaliadas 76 nações. É claro que ocupar uma posição tão abaixo do medíocre seria motivo de vexame para qualquer país do mundo, mas acontece que no caso brasileiro esse fato ganha contornos muito mais dramáticos ao saber-se que o leviatã estatal verde e amarelo abocanha mais de 40% da renda individual do povo em forma de impostos. Então como seria possível melhorar a educação diante dessa capciosa realidade? De maneira completamente paradoxal em relação aos fatos, a resposta que a maioria irá oferecer é: por intermédio de mais investimento (o que consequentemente gera mais impostos). Porém, para a minha alegria, tive a chance de responder corretamente a essa e outras perguntas após ser convidado pelo 2º Sargento Jaime de Paula Barbosa para visitar o recém-criado colégio militar Tiradentes na cidade de Pouso Alegre em Minas Gerais.

Antes mesmo de entrar no colégio militar, é possível perceber como a parte externa do ambiente é muito bem cuidada. O sargento Jaime me fala que foi feito um mutirão entre funcionários do colégio, pais e voluntários para reformar as dependências do local. No portão de entrada me deparo com uma enorme placa azul contendo as seguintes determinações: “Proibido o uso de roupas inadequadas para adentrar o Colégio Tiradentes, tais como: Shorts; Bermudas; Minissaia; Blusa curta ‘barriga de fora’; Blusa com decotes profundos; Bonés”. Apenas três passos após passar o portão, existe uma fileira de cones que conduzem a uma mesa com três caixas abertas, lá todos os aparelhos celulares devem ser depositados, pois não é permitido a ninguém a utilização destes nas dependências escolares, e isso vale para funcionários e professores também.As salas de aula — bem como todo o ambiente do colégio — estavam perfeitamente arrumadas.

Os alunos foram chegando, todos bem uniformizados. Para estabelecer um parâmetro comparativo, entrevisto vários estudantes acima de quatorze anos que já passaram por colégios públicos, fazendo as seguintes perguntas: Qual é o melhor estabelecimento de ensino: o público ou o militar e por quê? O que você acha dos seus professores? Como é a sua relação com os outros alunos? Como o colégio lida com os alunos indisciplinados? Você gostaria de voltar a estudar na escola pública comum? As respostas que obtive foram uníssonas, sendo expressadas de maneiras distintas e, em síntese, consistem no seguinte: quanto à primeira pergunta, os alunos preferem o ensino militar por causa da disciplina, pois no colégio público existem certos alunos que atrapalham as aulas, não respeitam os colegas e, até mesmo, os agridem sem que sejam punidos de maneira efetiva. Muitas crianças afirmaram que tinham medo de serem agredidas na escola comum, inclusive receio de sofrer represálias por serem filhos de policiais; Quanto à segunda pergunta, foi dito que os professores do colégio Tiradentes são comprometidos, atenciosos e possuem metodologia de ensino tão ampla que facilita até na hora de resolver o dever de casa; Quanto à terceira, responderam que a relação entre alunos é boa e que não têm do que reclamar; A respeito dos indisciplinados, afirmaram que todos são tratados de maneira igualitária pela administração do colégio, que os alunos desobedientes são chamados para uma sala reservada. Nenhuma criança é repreendida publicamente. Tendo em vista os relatos colhidos, não foi nada surpreendente o fato de que todos os entrevistados responderam o último questionamento afirmando que não tinham a menor vontade de sair do colégio militar para qualquer um outro.

Antes do início das aulas é feita uma chamada geral na quadra do colégio onde alunos, professores e funcionários ficam organizados em forma e cantam o hino nacional e demais canções relevantes para datas específicas (durante a minha visita foi tocado o hino da bandeira). As perguntas que fiz na entrevista com professores foram as seguintes: existe alguma diferença da grade de ensino do colégio público para o militar? O(a) senhor(a) gosta de dar aula aqui e porquê? Me foi respondido que o material didático é o mesmo das escolas públicas, ou seja, o estabelecido pelo Ministério da Educação. Sendo que a única diferença é que no ensino militar existem duas disciplinas adicionais: ensino religioso e de educação moral e cívica. Os professores foram unânimes ao afirmar que gostam de dar aula no colégio militar e que isso se deve ao bom comportamento dos alunos, como também a postura firme dos responsáveis pela direção — sendo que esta se divide em direção pedagógica e administrativa.

A Diretora pedagógica do colégio, senhora Rose Mary Bueno de Paiva Alcântara Cunha, é educadora há 46 anos, tendo dedicado apenas os últimos dois deles ao colégio Tiradentes da PM de Minas Gerais. Ela foi categórica ao afirmar: “gostaria que o que acontece no Colégio Tiradentes acontecesse em cada escola deste país”. E não é para menos, em apenas um ano e meio de colégio militar na cidade de Pouso Alegre — MG, este conseguiu cinco menções honrosas para alunos na olimpíada de matemática e o prêmio de escola seletiva. Além disso, a escola está significativamente acima da média da Superintendência Regional de Ensino e da Secretaria de Estado da Educação em todos os índices de avaliação de qualidade do ensino.

A senhora Rose Mary segue com os elogios: “trabalhar aqui é diferente de tudo o que eu já fiz, o Colégio Tiradentes possui missão, visão e filosofia totalmente diferente das outras escolas. Aqui, além da busca da excelência acadêmica, se busca a formação integral do aluno, juntamente com a disciplina, com a questão ética, com a solidariedade, com uma visão de mundo diferenciada”. Por fim, ela fala que os casos de alunos indisciplinados são registrados no FAA — Ficha de Acompanhamento do Aluno — sendo que os pais são chamados para justificar a ação do filho juntamente com ele. As faltas são divididas em leves, médias ou graves, podendo gerar penalidades como a suspensão de até três dias. Se persistir o comportamento inadequado do estudante, este será julgado por um colegiado responsável por determinar a permanência ou expulsão do mesmo. Tudo isto é feito sem que o aluno rebelde seja exposto a qualquer tipo de tratamento vexatório ou diferenciado na presença dos outros alunos.

Finalmente, após explanar sobre o que presenciei em minha visita ao Colégio Tiradentes, pontuarei as razões que fazem a metodologia educacional dos policiais militares mineiros ser padrão de excelência nacional.

A hierarquia e a disciplina são os pilares básicos de todas as organizações militares brasileiras. Portanto, não é nada surpreendente que esses princípios sejam os mesmos que norteiam a educação por eles organizada. Acontece que tais valores não são de natureza exclusiva do meio castrense, outrossim constituem-se em verdadeiros bastiões axiológicos de natureza universal, indispensáveis para o bom funcionamento de qualquer sociedade humana.É a hierarquia que nos diz que no mundo existe uma ordem a ser observada por todos que vivem em sociedade. No meio escolar ela determina as funções de subordinação que alunos, professores, coordenadores, diretores e demais membros do colégio devem ocupar. A disciplina, por sua vez, torna a observância da hierarquia exequível tanto ao sobressair os que a observam, quanto ao penalizar quem se desvirtua do rumo que deveria ser trilhado.

Foi a destruição dessas duas bases a grande responsável pela completa falência do ensino público no Brasil. Na questão hierárquica isso se deu por intermédio do relativismo proposto pelo método Paulofreiriano que, por exemplo, substituiu a organização tradicional das salas de aula em carteiras enfileiradas pela disposição circular objetivando o debate entre alunos e educadores justamente para facilitar a troca de conhecimento entre eles. Por mais que a maior parte das salas de aula adotem a forma em círculo poucas vezes ao ano, a ideia mórbida de intercâmbio igualitário de conhecimento entre mestre e discípulos prevalece praticamente intocável até hoje. Antes de saber andar, a criança engatinha. Quem deseja aprender algo deve manter os ouvidos abertos e a boca fechada, salvo para tirar alguma dúvida e quando for avaliado. É de fundamental importância para o estudante que ele ignore quase que por completo as suas próprias ideias e abra a mente para a assimilação da matéria estudada e dos motivos que serviram para a sua formulação. Só após isto ele possuirá propriedade até mesmo para contestá-la, mas quando e se o fizer, não estará mais na posição de mero aprendiz.

Todos os dias neste país algum aluno desrespeita os seus professores e não é corretamente disciplinado. A hierarquia já não significa nada. Mesmo casos extremos de agressão física não são severamente punidos e é evidente que o processo educativo em um ambiente desses é simplesmente impossível. Corrigir a quem comete falta é um ato indispensável para o processo educacional, bem como para a formação cívica. O professor deve ser alguém investido de autoridade para tornar o exercício de sua nobre função possível, falando grosseiramente, na boa educação “você entra no eixo, ou o eixo entra em você”. Como seria maravilhoso se todos os alunos desse país possuíssem uma FAA e pudessem ser responsabilizados pelos atos que cometessem, dessa forma a criança seria instruída no caminho que deve andar, e mesmo quando envelhecesse não se desviaria dele (Prov. 22:6).

Ainda no mesmo sentido, a questão da hierarquia e da disciplina são complementadas pelas disciplinas moral e cívica, religiosa, assim como as normas internas do colégio (proibição de roupas curtas, da utilização de celulares nas dependências escolares, exigência de uniforme e boa apresentação pessoal, etc.) para formação de um cidadão de moral elevada, que entende o significado e a importância indispensável que a lei e a ordem possuem para qualquer sociedade.De maneira mais específica, entender a moral e o civismo de um povo alinhado com as suas raízes religiosas significa permear pela substância da sua própria cultura. É impossível para uma nação saber qual o melhor caminho a ser percorrido no futuro, sem que tenha os olhos focados nos sólidos aprendizados vividos em momentos passados. Sem que perceba o que deve ser conservado e protegido de todas as formas contra a ação corrosiva do tempo e o que deve ser jogado na lata do lixo da história. Sem que assimile em seu espírito o que o sentido etimológico da palavra cultura possui para um país, qual seja: os componentes certos que cultivaram a terra com os nutrientes necessários para o florescer de toda pátria. E esse aprendizado é próprio das duas disciplinas acima citadas, juntamente com a de história do Brasil e da civilização ocidental.

É claro que não poderia deixar de sobrelevar as normas internas quanto à apresentação pessoal exigida pelos militares. Deveria ser óbvio para qualquer um a realidade patente de que adolescentes no desabrochar da puberdade teriam sérios problemas de concentração em sala de aula ao ter que decidir entre olhar para o professor ou para o colega de turma utilizando vestes que o mantém seminu.Isso não é só uma questão de bom senso e modéstia– apesar de que se fosse, também estaria de bom tamanho para mim — mas de praticidade educacional.

Finalmente, para responder a pergunta do início deste texto, para melhorar boa parte da educação diante da capciosa realidade brasileira sem precisar investir um único tostão bastaria que o ensino público se inspirasse no exemplo do Colégio Tiradentes, ou seja, respeitasse a hierarquia e a disciplina agindo com rigidez e comprometimento e desenvolvesse um método educacional eficiente que chamasse também os pais para se envolver com a realidade escolar dos filhos. Do contrário, bilhões e bilhões de reais podem ser destinados à educação que não servirão para melhorar absolutamente nada, dinheiro, per se, não compra ensino. Mutatis Mutandis, é claro que de maneira circunstancial o dinheiro ajuda na compra de equipamentos, material didático, na melhoria das dependências e, principalmente, na necessária valorização profissional do corpo docente.Só não é e nem nunca será a solução miraculosa do lastimável problema educacional vivido pelo Brasil.

Agora para solucionar o problema como um todo seria imperativo observar o tipo de material didático oferecido pelo Ministério da Educação em comparação com o sistema educacional chamado Artes Liberais, que serve como principal fonte de homeschooling mundo afora e foi desenvolvido desde tempos quase imemoráveis do período grego clássico até ganhar forma durante a idade média. Afinal não é surpresa para ninguém que questões claramente políticas têm influenciado de maneira extremamente negativa o tipo de livros exigidos pelo MEC, sendo que o projeto de lei denominado Escola Sem Partido é uma prova categórica disso.

Retornando a questão do ensino militar, só me resta tomar parte nas sábias palavras da diretora Rose Mary: como eu gostaria que o que acontece no Colégio Tiradentes, acontecesse em cada escola deste país.