A vida tá nas beiradas.

Só se vive, de verdade, nas beiradas. Na beirada do conhecimento, na beirada do medo, na beirada da certeza.
Mas acontece que eu, e você também — muito provavelmente — , vivemos é nos privilégios. E no privilégio é raro ter beirada.
As margens de segurança nos seguram bem. Quanto mais privilégios, menos beiradas. Cada diploma parece um metro mais longe da beira — não só os diplomas de faculdade, mas tudo o que a sociedade-de-bem te legitima e te exalta.
E o ponto é que o privilégio é uma droga pesada. Ele não só te afasta das beiradas, como também te enfeita e te adula numa porção de pedestais. E aí vicia, num tem jeito.
A sorte — ou a benção — é que a gente é terrível e ninguém nunca alcança todos os privilégios do mundo. E aí, por mais confortável que seja a maioria dos nossos privilégios, a gente nunca tá completo. Por isso, talvez, seja sempre possível perceber um desconforto, um desconhecimento, um desejo, um desafio.
Sabe aquele muro meio alto demais pra subir, aquele vão meio largo demais pra saltar, aquele sonho meio grande demais pra conquistar?
É exatamente aí que fica a beirada. E, na real, a gente sente falta dela demais, né? Bate aquela angústia viver na monotonia, na mediocridade e no conformismo.
É só nessas beiradas que a gente pula de fase na vida — “Eita, eu cheguei aqui!” — e até já mira a próxima beirada, a próxima fase, a próximo friozinho na barriga.
Meu ponto, enfim, é que na maioria das vezes a gente pode e precisa criar nossas beiradas. A gente só se conhece no limite e só se constrói no risco.
Em todo o resto, a gente só copia. E tudo bem também, há muita gente hábil em ser boas cópias.
Eu não. E você?
