Industrializaram meus sonhos

Muito embora não tão límpidos, meus sonhos varriam quase satisfatoriamente as descrenças, ou assim pretendiam. Emergiam, meio turvos, meio renascidos, mas sempre bem arqueados, faceados por um sorriso inteiro desses que mãe ri pro filho mais por compromisso que vontade. Teimavam, como se em incontornável anestesia, em insistir.

Por mais incabíveis que fossem — e por vezes literalmente não cabiam aos departamentos das minhas independências -, vinham. Acarinhavam e manipulam, em sua própria metalinguagem, o apaixonar-se aos riscos, às beiradas, aos completos desmandos da prudência. Caminhavam, por natureza, sobre a possibilidade talvez majoritária de nenhuma convicção.

Sonhar era bater de frente até que fosse sincero desprender-se de qualquer resto. E enquanto não, era sempre um exercício amargo, um dever amaríssimo.

Não achava ser a vida coisa a se domesticar. Mas nem mesmo eu era, e ainda assim cá estava forçando as paredes pra deixar de ser. Pensei comigo, então, que talvez a única justiça intrínseca ao sonhar fosse a privacidade. Desejei: os sonhos de olho aberto haviam de ter, se tão copiosos em pretensão, ter também copiado o sono dos sonhos de olho fechado, e lhes (ou nos) mantido a espontaneidade, o novo, o susto.

Hoje tem vez que arde o sonhar por imitação, por ordem, por propósito, por geração x y z. Industrializaram os meus sonhos, e agora é um custo caçar sonho orgânico, sem agrotóxico. Os contra-argumentos persistem e o mundo tem tecnicizado o sucesso, mas será que todo sonho é feito pra se realizar?

Nada me proíbe de ir descobrir outro sonhar. Mas nada também me empurra. Quando criança os sonhos (de verdade) me empurravam pra fora da cama, e ainda procuro qualquer autenticidade tal qual lá.

Tem hora que seria mais doce poder sonhar mais surpreendentemente e menos como a gente aprende a fazer.

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