Se eu escrevesse um livro hoje —capítulo quase-um

Antes de persistir nas poesinhas, queria terminar de me apresentar, e pode ser que isso mais se pareça com uma justificativa ou uma desculpa. Só não quero te desapontar quando as páginas se encherem de muita esperança logo na hora em que a sua compaixão com o meu tumulto lhe trouxer a um estado de leve melancolia. Ou mesmo se, quando o dia parecer imperturbável, eu destruir suas expectativas —sei que já bastam as reais, garanto, e não é por mal caso eu lhe conte de algo desagradável no meio de um bom vento ou um bom vinho.

Um dia eu descobri que sou mais amor do que felicidade. Deve ser imediatismo, coisa de gente ansiosa, e ao longo dos anos fui tornando a projeção de amar mais vibrante que a de ser feliz. É como se a felicidade fosse meu maior sonho, e o amor fosse a paz mais segura da minha realidade.

Notei inclusive, outro dia, que decidir ter assim o amor, tão perto, ao alcance dos dedos e das letras, era confiar a mim a responsabilidade inteira de sobreviver até nas coincidências das des-graças (odeio essa palavra; o hífen me permitiu usá-la, para fins meramente didáticos).

Na verdade, afinal, é possível que seja tudo só uma escolha literária. As palavras que sei escrever são mais românticas que alegrinhas, e tendo a dispensar as letras quando uma felicidade (daquelas de sábado de manhã) me toma de jeito. Isso talvez explique que essas páginas lhes sejam mais como um abraço do que um drinque. Com sorte, um bom abraço, sem tapinhas nas costas.

Ah, e cabe te avisar que, sim, se alguém me resumisse esses últimos parágrafos, sei que certamente até eu me surpreenderia com o tédio das palavras. Perdão, temo não saber deitar euforia nas linhas — temo sequer querer aprender. E lamento, não deve melhorar: o ritmo dos capítulos talvez tenha mais cadência que energia, mais consciência que graça, e um passeio com o cachorro talvez te deixe mais vivo que persistir me acompanhando.

Mas é que escrevo por necessidade, minha amiga. Escrevo pela vulnerabilidade egoísta de não querer caber todo em meu corpo só. E pelo medo de um dia, esgotado o corpo, perder-me da beleza dos sentimentos que vi e das borboletas que andei sentindo. Até lá, te prometo contar das calmas que encontrar pelo caminho. Às que não encontrar, invento.

Ufa (e me acomete a vergonha das interjeições, tão deslocadas quando por escrito), sinto agora o alívio de não mais te enganar. As letras que vierem a seguir, caso eu tenha fôlego pra rabiscá-las, hão de ser, ao menos, sinceras. Agradáveis, interessantes, deliciosas, não. Já reservei o risco dessas expectativas para a própria vida — e nem sempre há sucesso, admitamos. Ainda não sou louco a ponto de me exigir tanto assim.


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