Eu, comunicação, Jequitinhonha e um trem bom de ser humano.

Foram mais de 12 horas na estrada que me lembrava de quando eu ia pra casa da minha vó. Mas eu não tava indo pra lá, e isso era estranho. Aí nem quinze minutos de viagem e eu percebi que tinha deixado o fone de ouvido em casa. Vieram a ser quatro dias sem Spotify, e eu achando que isso seria impossível.

Eu ia indo pro V Encontro de Comunicadores do Vale do Jequitinhonha, na cidade de Medina-MG, como voluntário do Polo Jequitinhonha, projeto de extensão da UFMG. Como um péssimo voluntário, fui me inteirar das funções só lá mesmo no evento. Como parte do meu papel de Suporte, logo na primeira manhã, sexta-feira, estava eu na secretaria da Câmara Municipal realizando o credenciamento dos quase 150 inscritos.

Entrada da Câmara Municipal da cidade, de frente pra pracinha.

Eram jovens de tudo quanto é cidade do Vale. Itaobim, Padre Paraíso, Salto da Divisa, Araçuaí, Cachoeira do Pajeú (cujo nome ainda nunca tinha ouvido falar, e hoje já não esqueço). Bom dia! Qual o seu nome? E nesse protocolo, eu ia olhando os rostos de cada um que chegava pra assinar a presença e receber o crachá. Fala-se que os olhos são a janela da alma, e eu já acho que são a alma inteira. Um sintoma inegavelmente genuíno e bonito de se ser humano. Os olhos tímidos, os animados, os disfarçados, os sonolentos, os proativos. Eu odiava a burocracia de conferir lista, juntar pasta, cortar fita, entregar folha; mas já até me esquecia disso.

“Ô, Laura, você não acredita no que já aconteceu desde a outra vez que vocês vieram”. Esse era o Bruno, conhecido de outras primaveras pelo pessoal do Polo. Queria ficar com os meus óculos. Queria ser jornalista, dizia ele. E também uma câmera pra tirar foto dos problemas da cidade e denunciar no Medina pede ajuda, perfil de que ele cuida no Facebook.

“Ô, Laura, você não acredita no que já aconteceu desde a outra vez que vocês vieram. Meu vô morreu. Não passou um ano, minha vó foi junto.”

A cada pessoa, a todo sotaque, se desenrolava uma dose de história que absurdamente não era literária. Era só realidade mesmo. ❤

No almoço, os pratinhos de plástico coloridos, as colherzinhas de plástico coloridas, as canequinhas coloridas, eu encantado. Almoçar sem cerimônia nem cerimonial, sem pesar na balança, sem escolher se filé ou frango, sem garfo e faca e porcelana e guardanapos. A quadra da escola tinha ares de um trem simples, natural, bom de estar.


E aí na sexta à noite talvez tenha sido quando a viagem toda mais me fez sentido. No ginásio, os preparativos para a abertura oficial do evento. Mesa composta, decoração ajeitada, cadeiras distribuídas, gente chegando. Nas laterais, uma exposição de fotos pelas cidades da região. Tinha paisagem e tinha gente. Não eram poucas as fotos que me seguraram por minutos e me mandavam respirar fundo pra assimilar o profundo daquilo.

A qualidade da foto das fotos não ajudou, mas enfim. :p

Os componentes da mesa começaram a falar. Nos discursos diplomáticos, tédio. Noutros cê via que o coração não se continha de intervir na oratória. Isso me deixava feliz. Inclusive veio ainda uma palestra maravilhosa da Rafaela Lima, da Associação Imagem Comunitária, falando de comunicação e arte de um jeito tão maravilhoso, tão crente naquilo, que dava aquela certezinha despretensiosa de que, sim, eu amo muito tudo isso. No fundo, eu ia vendo que comunicação é só um jeito absurdamente prático e inevitável de deixar a gente cada vez mais humano — e certamente mais feliz.

Por fim, vieram as apresentações culturais. Começaram as coreografias, e antes que aquela velha opinião formada sobre tudo vestisse a carapuça dos pré-conceitos e expectativas, logo o som saía de chuva,eu peço que caia devagar e começava a tocar Uptown Funk. Não tente adivinhar o que o Vale quer dizer. É sempre muito, muuuito mais. Seguiram acrobacias de alguns outros meninos, e a plateia tensa a cada ousado salto. Entretinha e falava um tanto.

Toda a proposta do evento e dos esforços no Polo buscava democratizar os discursos sobre o Vale e mostrar à população dali sua possibilidade e capacidade de expressar pro mundo o que quer que eles tivessem a dizer. E aquilo ali era exatamente isso, sem tirar nem por. A convicção a cada passo, a alegria a cada palma, a cada riso, me davam uma paz e uma agonia profundas.

A paz instintivamente empática de ver gente sendo feliz, sendo verdadeira. E a agonia de talvez estar ainda longe demais de entender o que significava tudo aquilo. Sem que eu quisesse, ainda era um pouco do eu acadêmico da capital achando bonita e original a arte simples, distante, popular e folclórica do Vale. Às vezes esquecendo que era mais que isso: era personalidade, era expressão, era uma diversão, era cultura, era gente. E tinha hora que eu me culpava por quando enxergava tudo com cara de objeto de estudo. Só me aliviava quando me percebia rindo, talvez quase chorando, numa gratidão enorme por estar ali.

Era gente. E minha gratidão crescia à medida que eu via como era bonito isso. Tá tão na cara, e a gente custa muito a perceber. É tudo questão de ser humano. É tudo pessoas, percepções, sensações, ideias, amor. Aliás, amor não me costuma parecer uma palavra fácil, mas suspeito que seja o jeito autodidata do ser humano aprender a ser humano. Só isso. E aí eu viajava sobre como seriam as coisas se a gente não se esforçasse tanto por esconder isso. ❤


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