Fugiu das pressões, ganhou o vento (e as paredes) e se foi

O amor não tem

Escapou pelas mãos, fugiu das pressões, ganhou o vento e voou. O amor não se prende. Não se força. O amor subverte. E, se faz isso, invade qualquer coisa, transforma qualquer panorama, penetra em qualquer um — até mesmo nos irredutíveis corações de pedra. Ele alcança quem o quiser, salva quando o desejam, reconstrói os desiludidos; mas destrói, aniquila e extermina aos que tentam dominá-lo. O amor é tão ambíguo que pode ser tudo isso ao contrário. O amor correto, reto, to. O amor divertido, tido, do. O amor bagunçado, çado, do. São apenas ecos de bocas crentes, esperançosas em encontrar a felicidade refletida no olhar do outro. Amor é amor, pombas!
O amor desconhece o verbo “ter”. Essa história de “ter”, aliás, é papo furado. O amor não tem hora, não tem momento, não tem parada. O amor não tem nada. Não importa para aonde fores, não importa a estrada, vais encontrar alguém, e aí não adianta fugir, fingir, se iludir. Não adianta mais nada. Se for amor, não dormirás. Se for amor, desejarás. O amor não tem paciência. Nós, humanos, sim, temos. Nós, sim, precisamos nos controlar. O amor, não. O amor não tem nada.
Ainda que seja independente e construa autônoma e naturalmente os sentimentos, o amor quer ser provado. Prová-lo-ei de duas formas: a primeira, aproveitando do outro o que encontro vantagem: seu corpo, sua boa, sua companhia. Degustando cada estímulo afetivo para despertar em mim alegria. Porém, também preciso mostrar o que sinto, mostrar que não minto, entoar minha ode ao coração por quem estou enamorado. Talvez não seja nada disso. Melhor retrair, enganar, desconversar. Melhor não mostrar a fraqueza a qual nos colocamos ao estarmos apaixonados. Melhor sermos fortes e comedidos. Quem é que sabe? O amor oscila entre o tudo e o nada. Às vezes, nos sentimos cheios, completos. Às vezes, o vazio é tão grande que parece haver outro dentro de nós, ocupando todos os espaços e nos arrastando.
As dores e alegrias são todas nossas. O amor, não. O amor não tem nada.

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