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Saíam há três ou quatro semanas, em dias intercalados, de maneira que não se viram nem muito — todos os dias, o que configuraria um relacionamento sério e longo o que todos com vinte e tantos quase trinta evitavam categórica e abertamente apesar de ser exatamente o que queriam — nem pouco — o que caracterizaria uma série de encontros casuais nos quais nenhuma conexão seria pretendida. Saíam então, há três ou quatro semanas em uma frequência prazerosa o suficiente para contarem aos seus amigos um sobre o outro e em um arranjo confortável o suficiente para combinarem o encontro do jantar da quarta-feira em frente ao prédio no qual ela morava.
Ele chegou cerca de meia hora antes do horário que haviam combinado no número 3467 da Av. 9 de Julho, esquina com a Cravinhos. Pensou que a fachada do prédio combinava com ela. “Cheguei”. Dois sinais azuis. Recebeu imediatamente uma mensagem de voz afobada e sem graça: “Falta só eu arrumar umas coisas, você quer subir? Não tem muito onde esperar ai. Mas fica a vontade, você que sabe”. Ela sempre cuidava para deixar claro que ele podia recusar que quer que fosse proposto, e ele sorria cada vez que isso acontecia. “Abre aqui.”
Subiu dois lances de escada e tocou a campainha do apartamento 28. Ela abriu a porta sorridente, já se desculpando, quase que imediatamente — e simultaneamente — pela espera, pela casa, pela pressa. Mal se cumprimentaram e ela voltou a andar de um lado para o outro no apartamento quase vazio, fazendo mais coisas ao mesmo tempo do que era possível fazer considerando a pouca quantidade de coisas que havia ali para se fazer algo. O apartamento era pequeno, antigo, mas absolutamente aconchegante, como um abraço. Na sala, um colchão interpretava um sofá com algumas almofadas macias apoiadas, uma pequena vitrola cantava apoiada no chão enquanto o disco dançava , as plantas próximas da janela, os desenhos expostos na parede em pequenas molduras brancas. “Há quanto tempo você mora aqui?”. Do fundo do que acreditava ser a lavanderia ouviu: “Ah faz um mês mais ou menos, ainda tô ajeitando tudo, desculpa”. Surgiu com um sorriso sem graça e um prato de ração na mão, enquanto um gato manchado se enrolava em suas pernas. “Vou só trocar a água do Mingau e vamos”. “Mingau?”. “O gato” .“Igual ao da Turma da Mônica?” . Perguntou arqueando as sobrancelhas, e pensando que não sabia como ela não havia falado sobre o gato até então. Ela sorriu colocando o cabelo para trás da orelha e sumindo em seguida atrás da bancada que separava a sala da cozinha. “É”.
No corredor que dava acesso ao resto do apartamento viu a parede coberta de fotos colocadas em uma espécie de mural feito de plástico transparente. Quando ela percebeu o olhar atento dele sobre as imagens disse, ainda terminando de fazer as tantas coisas que eram inimagináveis de serem realmente necessárias: “Legal, né? Fui eu que fiz, assim posso colocar várias fotos em um lugar só, de passagem. Fica todo mundo aí, comigo”. Ela foi até a sala, desligou a música, passou a mão no gato, fechou as janelas. Ele esperava olhando cada uma das fotos e pensava o quanto gostaria de ficar naquele apartamento vazio ouvindo ela contar quem eram cada uma daquelas pessoas enquanto ela andava de um lado para o outro colocando os cabelos atrás da orelha, abaixando e levantando, e sendo enrolada pelo gato manchado. “Vamos?”, ouviu em sobressalto.”Vamos.”
