#2

Cristina Couto
Jul 28, 2017 · 3 min read
“Best friends” — Dan-ah Kim

Havia mudado de casa em uma quarta-feira de sol por acreditar que os finais de semana não eram feitos para mudanças: nem de casa, nem de dentro, ou de lugar para almoçar. Gostava das pequenas repetições que os dias de semanas possibilitavam, e a ideia de iniciar as novas repetições o quanto antes agradava sua mente barulhenta. Na rotina conseguia encontrar suas pausas, inspirar o ar e os pensamentos, organizar os sentimentos.

A mudança completa foi feita em duas viagens de táxi da antiga para a nova casa. A nenhuma mobília foi adquirida duas semanas antes em uma dessas lojas que parcelam as compras em tantas vezes no cartão de crédito e aos poucos pretendia entender o que ia preencher o novo espaço. Mas aos poucos. Viu-se só. Pela primeira vez.

Os dois primeiros dias da agitação da semana foram para organizar a casa — o que foi suficiente tendo em vista a pouca coisa, e manter a rotina de trabalho. Como trabalhava em casa preferiu seguir a lógica de dias da semana para trabalhar, o que iria inevitavelmente fazer com que ela tivesse ainda atividades no final de semana, os dias que temia desde que havia decidido realizar essa mudança: conhecia os sábados e domingos silenciosos que davam espaço para os verdadeiros barulhos.

Na sexta-feira a noite, decidiu comer no lanchonete/bar/restaurante localizado na esquina da rua vizinha e dar início às verdadeiras rotinas, para que pudessem então ser interrompidas. Decidiu então fazer a volta completa no quarteirão só porque podia. “Só porque posso.” — a doçura da autonomia. Sorriu colocando as mãos nos bolsos do casaco e arrumando uma postura de independência, subindo o tronco. Gostava de fachadas de casas e, distraída, emendou um caminho no outro até que adentrou o bairro se afastando da avenida; fez a volta e iniciou o retorno, agora pela sua rua — “Minha rua.”, até o prédio onde morava. Há três blocos de distância do destino final enxergou um coração peludo com um rabo comprido e alto rebolando na sua frente. Andava lento, cadente, dançante. Ela trocou passos com o gato: ele ia para um lado, ela para o outro, ele parava em um ponto da rua, ela ia para o lado contrário e esperava; ele subia, ela abaixava. Seguiram assim até o final da Rua Cravinhos, quando ele parou em sua frente. Como havia chegado em casa, achou que era o fim da brincadeira e passou por ele, que até então não a tinha visto, virou a esquerda em direção ao portão do prédio. “Tchau”, acenou.

Quando virou o corpo para fechar o portão ele estava parado em sua frente, os olhos cinzas encarando seu rosto gelado pelo vento noturno. Era a primeira vez que o via de frente: manchado como se uma poça de óleo ou de gasolina tivesse sido derramada em um pelo branco enferrujado. Subiram os dois lances de escada em silêncio. Ele entrou no apartamento 28 e sentou o coração manchado e peludo no centro da sala vazia. Lambeu lentamente a pata direita e virou o pescoço para ela, que observava a chegada da sua primeira visita quase sem respirar ainda parada em frente a porta. “Você bebe leite, Mingau?”. Ele andou lentamente em sua direção, se enrolando em suas pernas.”Vem”.

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decidiu se meter a escrever, mas sabe mesmo formatar textos segundo as normas da abnt.

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