Apneia

Cristina Couto
Aug 31, 2018 · 3 min read
The Clearing — Clare Elsaesser

A mariposa branca repousava na parede quando abri os olhos pela manhã, tamborilando de quando em quando as pequenas asas cardíacas.

Vesti os óculos de grau míope, no intuito de focalizar o olhar ainda turvo pelos movimentos noturnos e pela luz excessiva que adentrava o quarto de dormir —gosto da luz da manhã e do acordar progressivo que ela provoca: às sete entreabro os olhos pela primeira vez, diariamente; depois, às oito, quando somo à luz já endurecida do sol a da tela do celular e me permito afastar as cortinas, fitando o céu que nuança entre azul e branco. Às nove e meia me rendo ou ao sol quente ou à vontade de ensolarar, mesmo o dia mais escuro.

Naquele dia o primeiro retorno à vida se dera às 06h45, 15 minutos antes do esperado, de forma que ignorei — inevitavelmente — o ritual matutino já interrompido. Com os olhos já corrigidos pelas lentes grossas levantei o corpo desperto da cama quando a ouvi pela primeira vez: ei, há quanto tempo você anda por aqui?

Com repentina naturalidade respondi ainda alisando o rosto oleoso não me lembro quando nasci. Ela farfalhava as pequenas asas alvas que lembravam papel. Você já chegou a pensar que talvez é porque ainda não tenha acontecido?. Senti o preenchimento do silêncio —o que antecede a finalização de uma gestação, acompanhado de gritos gruturais que não são ouvidos através da parede do útero que pulsa o início de uma vida. Percebi que ela me faria perguntas que eram sempre respostas a perguntas que eu mesma nunca havia feito, e não eram nem sete horas da manhã. Alisei a franja espetada, organizando a postura, procurando com isso organizar as palavras, responder uma afirmação ou outra interrogativa que de alguma maneira me tirasse —quem sabe me colocasse, naquela situação.

No intervalo longo de silêncio (sentia que horas se passaram em minutos) ela deixou a parede, formando uma elipse longa no ar decomposto na luz do dia que começava a esquentar. Já devia ser próximo das oito horas, o que dizia que uma hora inteira deslocara-se dentro de mim. Pousou na minha mão esquerda que descansava entre as pernas, entrelaçada à direita. Pude enxergar seus olhos, brancos como as asas, quase azulados, semelhantes a duas micro esferas de louça que me fitavam amorosamente. Você sabe, já é tempo.

Suas asas já abertas, preparadas para o voo, ainda formavam simbolicamente um coração. Vê o silêncio? Então. Minha boca emudeceu e não tive mais vontade de responder, consciente de que algo movimentava-se permanentemente, internamente. Por mais que a dissessem margarida ela nunca deixou de ser sua orquídea phalaenopsis branca de pintinhas cor-de-rosa, mesmo depois de suas folhas enrugarem e elastecerem.

Por mais que a dissessem margarida.
Por mais que dissessem para hasteá-la.
Por mais que dissessem.

Senti o seu esqueleto delicado sendo inserido pouco a pouco na veia esverdeada abaixo do meu polegar. Desde então escrevi quatro cadernos à mão.


Meus cadernos escritos sobre vontades de mudar o mundo. Meus cadernos escritos sobre as minhas vontades de mudanças próprias. Meus cadernos escritos. Há letras que ficam, escritas em presença, na ausência, sem ruído.

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decidiu se meter a escrever, mas sabe mesmo formatar textos segundo as normas da abnt.

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