Pequena carta para mim (que não é sobre você)

Clare Elssaeser

Nos descobrimos conhecidos desconhecidos em uma noite gelada em que, depois de muitas garrafas de cerveja sobre a mesa do Rei dos Pinheiros, seu nome apareceu. A lembrança distante do seu rosto durante a conversa fez com que eu buscasse a imagem na tela brilhante do celular. Um tempo que não sei se feito de dia no singular ou plural, passou até que você me chamasse comentando sobre meus textos, o que por princípio me colocou na posição mais negada por mim nos últimos tempos: vulnerabilidade.

Declarei alto a certeza de que aquilo era uma consulta por indicações profissionais — o que fazia bastante sentido. Contei para um amigo próximo, me sentindo engraçada pelo encontro ter acontecido. Os períodos de tempo passados determinados em dia que se seguiram tiveram a sua presença. A certeza declarada se manteve mesmo depois da sua sugestão de nos encontrarmos. Quando a gente se acostuma com o desamor não confia em nada que parece bom, e diminui a experiência.

Antes de sair, confiante na certeza declarada alto e na experiência diminuída, decidi vestir um vestido preto, novo, ganhado de uma amiga, que esperava há meses um dia em que eu descobrisse especial. O clima do dia, o lugar, o sapato, meu humor, combinavam com ele — veja, não incluí você na lista, afinal, certeza declarada, experiência diminuída, legitimamente. Há tempos não vinha sendo sincera comigo e com as minhas expectativas como naquela noite, acredite. Quis vestir o vestido por me sentir especial aos meus olhos, já que não acreditava na possibilidade dos seus.

Te gostei quando te vi, te ouvi, te senti. Gostei assim, ali. Não vou me ater a descrição de um encontro em que eu mesma e você estávamos presentes, mas na lembrança das suas mãos quentes e macias. Em como eu não sabia se podia deixar as minhas repousarem nas suas como eu gostaria. Em como o enlace das duas foi confortável como se rotineiro. Em como nosso beijo foi. Olhei nos seus olhos e senti suas mãos segurarem meu rosto — mãos quentes e macias, que ainda me fazem derreter: você disse uma única frase, em inglês, que eu não vou reproduzir aqui, para que permaneça sendo só minha — egoísta.

Nos descobrimos desconhecidos conhecidos em uma noite gelada em que, depois de muitas garrafas de cerveja sobre a mesa do bar na Alameda Santos com a Consolação, nossos olhos apareceram. A lembrança do seu rosto próximo e do cheiro do seu pescoço faz com que eu busque sua imagem quando fecho os olhos, mesmo sem dormir. Não consigo — e nem quero mais — declarar certezas do que significa qualquer coisa — o que faz bastante sentido. Quando a gente não quer mais se acostumar com o desamor não precisa confiar em nada além do que é bom, e deixa correr a experiência.