Pequena carta para minha madrinha Maria

Ottokim (instagram/@ottokim)

Faz dias que quero escrever para você. Nas últimas semanas, todas as vezes em que pensei nisso me pareceu prepotente tentar colocar em palavras — e palavras no mundo — as coisas que por algum motivo tem me permeado. Hoje me pareceu uma boa ocasião. Uma boa oportunidade. Um bom dia de lembrança. Hoje as pessoas entendem, está justificado “é por isso que você tem lembrado dela”.

Mas sabe, nós duas sabemos que não é bem assim. Não é dia de calendário que traz saudade, é dia a dia mesmo, hora a hora, conquista a conquista, tropeço a tropeço. Nossa foto colada no espelho do meu quarto tem sido objeto frequente das minhas reflexões e dos meus reflexos: nela estamos nós duas em uma noite de natal, eu sentada no seu colo, e você me entregando a ursinha de pelúcia de chapéu cor-de-rosa que canta brilha-brilha-estrelinha — e que ainda vive guardada no meu guarda-roupa como se fosse um tesouro escondido.

Desde que o Miguel nasceu — e madrinha, a senhora ia adorar ver minha irmã como mãe, o Gustavo como pai, o Zé como padrinho, e sobre mim, bem, nós já já vamos chegar nessa parte — , desde que eu pedi para ser madrinha dele, reflito muito sobre a pessoa que eu quero ser para ele. E por mais que em alguns momentos eu tenha dito ou pensado “quero ser parecida com ela só em algumas coisas” me percebo cada vez mais parecida inteira. Como diria minha mãe, o anjo da boca mole passou e falou “amém”: da senhora pra mim, de mim pro Miguel.

Talvez por isso essa vontade de escrever, contar, dizer que sinto sua falta. Por me enxergar muito como madrinha Maria. Por perceber o meu cuidar, o meu carinho, a minha presença, a minha relação com ele e com a Juliana, com a minha mãe, com meu cunhado. Por ver muito da senhora em mim. Por mais que eu saiba que todas essas coisas são óbvias, como a senhora bem sabe, eu sou “bocuda”: para tudo responde, para tudo quer resposta, e aceita pouca coisa sem pensar sobre o que quer que seja. E por isso penso sobre a saudade e sobre essa nossa correspondência. Como essas coisas todas que foram partes de você agora são partes de mim, e como eu percorro consciente os caminhos que você abriu para nós duas.

É muito engraçado — no sentido de ter graça mesmo, porque são coisas que me fazem sorrir — como as lembranças da senhora são palpáveis. Sinto saudade do seu jeito de comer; sinto saudade de pegar café e água depois do almoço — e eu odiava fazer isso; sinto saudade da senhora tirar o sutiã por baixo da blusa quando as visitas saíam de casa; sinto saudade de ouvir “pega na mala da madrinha lá em cima”; da senhora falar que os meus namorados eram gostosinhos e que o Xororó era também; das ligações para minha mãe aqui em casa; saudade da sua mão, do seu jeito de dar risada, da senhora falar sempre desse jeito, em terceira pessoa “faz tal coisa pra madrinha” — eu falo desse mesmo jeito com Miguel.

As vezes eu vivo o que a senhora falaria pra mim hoje. Assim como as lembranças, a imaginação é palpável quando a gente tem vontade de que seja. Eu não digo que tenho certeza, mas acho que a senhora ia gostar de me ver estudando ainda, e do mesmo jeito que a minha mãe, ia “encher a boca” para dizer meus títulos por aí. Provavelmente ia dizer que eu preciso de um emprego para ajudar minha mãe, que meus ex-namorados (os gostosinhos) são todos bundões, e que eu preciso namorar um homem; ia me abraçar de lado dizendo que eu ando muito magrinha, “bonitinha da madrinha”. Ia me comprar alguma coisa colorida porque eu sou “toda estilosa”, e ia gostar de ver que eu e o Zé procuramos um ao outro para algumas coisas que não procuramos mais ninguém. Haveriam algumas broncas, provavelmente, porque eu respondo para tudo, porque minha vida é estranha para maioria das pessoas. Esse é o máximo que eu consigo pensar sobre o que você acharia se estivesse por perto ainda.

Em dias em que eu sinto o ar pesar, em que algum momento repentino o desespero aparece, olho e me olho na imagem na foto do espelho e, peço, do meu jeito inocente, ajuda. Para que eu me lembre da mulher que a senhora foi e encontre coragem para ser; para que eu reconheça e seja gentil com aquilo que porventura eu não concordava ou, na imaturidade da juventude, não gostava, e que portanto, eu mude e cresça; para que eu não tenha medo; para que eu cuide, sempre; para que a minha fé seja maior que as dores, os desamores e dessabores que a vida trás — os físicos e os de alma; para que eu saiba pedir — eu tenho tentado, mas é difícil para mulheres orgulhosas e suficientes como nós; para que eu ame muito, e sempre.

A senhora sabe que eu não disse nem um pedaço pequeno das coisas que eu penso quando nos vemos em sonho, ou nessas lembranças, ou nas fantasias da vida não vivida. A senhora sabe. Mas hoje eu quis contar um pedacinho, dizer em voz alta, tirar um pouquinho de mim para me enxergar melhor. No fim das contas é sempre a mesma coisa que fica dessas ideias todas:

Obrigada. Tenho o maior orgulho desse universo de ser sua afilhada Maria.

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