Pequena carta para um grande amor

“Head” — Jarek Puczel

Lembrei hoje do pacote de polenta que ficou no seu armário, lembra? Lembra que semanas antes fomos ao mercado, olhamos o preço do feijão, você pediu para eu escolher qual era o melhor para levarmos para casa, lembra? Lembra que compramos frutas, iogurte e eu estava ali cuidando de tudo, lembra?

Me pergunto como você fez com tudo isso. Com a polenta no armário, com a sala, com o guarda-roupa que eu arrumei, com as gavetas organizadas, com as contas, os potinhos de tempero embaixo da janela da cozinha, o aluguel.

Tenho a sensação de que fui eu que cuidei de você e da gente do primeiro ao último dia (e ainda cuidei de você depois, e ainda cuido da gente que ficou em mim). Como cuidei de cada passo, cada dia, cada escolha, com carinho, com afeto, com esmero, com a delicadeza de quem acaricia a cabeça de um recém-nascido. Quanta força eu tive por nós dois. Nas vezes em que enfraqueci, seu abraço antes de dormir bastou tantas vezes para me encorajar. Pouco. Eu nunca precisei de muito, meus excessos são de outra ordem que não externa.

Quem sabe, por isso, ainda não me reconheça direito: os meses passaram, eu parei de contar no calendário, e sinto que tateio caminhos. O cuidado é meu comigo, e o abraço encorajador sou eu mesma no espelho. Eu, eu, eu: essa é novidade. Acordo e listo o que ainda é em mim (esse “ensimesmamento” me parece necessário , e também o que tenho agora — talvez por isso, inclusive, tenha começado a escrever): não durmo sem esticar o lençol da cama; quarto sempre arrumado; não gosto de louça na pia; prefiro comprar roupa sozinha; feijão em cima do arroz.

Convivo todo dia com o que transformei — ou me transformou: não guardo mais dinheiro, não sobra mais; leio mais; trabalho mais; vou no cinema sem ser lançamento; converso mais com meus amigos; acordo cedo, durmo cedo.

Ainda olho para o céu de noite, você ainda olha? — aqui uma pausa: olho mais, olho todo dia, e isso é da ordem das coisas que permaneceram e mudaram.

Não tento mais resolver tudo, minha cabeça nem consegue mais. Esqueço e confundo os dias da semana, que não é mais milimetricamente cronometrada, agendada. Dias que acordo e o dia ainda está livre para ser feito. Como era de se esperar, ainda não me acostumei.

Algumas coisas eu jurava que nunca mais ia conseguir fazer, mas fiz — como gostamos de dar permanência para estados que claramente não são, já que não somos. Agora ando no centro da cidade sozinha, mesmo que ainda me perca as vezes; comprei um disco; comi hambúrguer no nosso lugar preferido; pulei (e amei) no carnaval; desci na sua estação de metrô (não consegui andar pela sua rua, medo de encontrar alguém; quis chorar mas logo passou e foi mais fácil do que eu imaginei); comi bife à parmegiana; peguei ônibus em frente ao seu trabalho na hora do almoço e ainda ando só nos vagões das pontas do metrô. Dia desses vou comer pastel na feira e tomar caldo de cana, vai vendo.

Eu tinha meu trabalho, meu estudo, e você. Ainda vou descobrir como fazer agora que é tudo sobre mim e achar um equilíbrio. Mês que vem. Mês que vem, oito meses, contei agora. Esse mês já foi e eu ainda não consegui equilibrar. Mês que vem tudo volta a melhorar. Mas não se preocupa, só hoje eu lembrei da polenta e daquele dia no mercado e precisei contar. Lembrei dela mas tem dias que eu nem lembro como eu era, ajudou a recordar.

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