A siciliana à siciliana

A Sicília: uma caixa de joias, nesse e naquele sentido. Das mais vistosas, por sinal. Sejam ametistas, rubis, topázios ou esmeraldas, encontramo-as por toda parte: no céu de muitas cores, na luz de muitas luzes e no mais imensamente azul dos mares, em todos os tons; nao parando por aí: são também notadas ao mordiscarmos figos e cerejas e ameixas e uvas e pêssegos e laranjas e limões, sicilianos e preciosos.
Barroca. Uma caixa de joias barroca. Do altar de suas igrejas decoradas com ouro e mármore e lápis-lazuli, às faixadas de suas construções metafóricas, até despencar em suas belle donne, enfeitando colos e pescoços e braços e dedos e ancas.
A siciliana é barroca e rebuscada e rica. Rica no sentido da riqueza da imagem, mas naquele outro também. Ela enche os nossos olhos. E se veste de Sicília. Da cabeça aos pés, com muito brilho e certa extravagância, por favor.
Destoando da elegância mais sisuda e contida da italiana do norte, a siciliana carrega a exuberância sensual do sul. Ela usa cores, abre a caixa de joias e vai de água-marinha al mare; mistura cintilâncias com estampas; usa cabelo longo e loiríssimo, aos 70, fazendo pose de prima donna, com óculos imensos de sol.
Fuçando a caixa, encontramos mais joias: padrões, os mais queridos, pintados em cerâmicas coloridas, como se pertencessem à casa de um rei muito próspero e animado; e rendas, as mais entremeadas, feitas em fio de linho, leve e natural, à mao. Tem quem abra essa caixa e faça dela referência: os padrões viram estampas para biquínis ao gosto da brasileira, enquanto a renda vira vestido, para cobrir o corpo — bronzeadíssimo — que da praia não sai.
Tem mais: as frutas viram brincos e as histórias da ilha, também; em complemento, palha e juta viram bolsas pintadas ou enfeitadas em cores de pedras, igualmente repletas de contos e cantos e encantos, sicilianos, claro.
E a preciosidade é que nada disso e tudo isso nao é só para viajante ver e querer e comprar: elas usam e se vestem de Sicília, com a confiança fértil de quem se reconhece em sua própria identidade.