Cidade nova, primeiras impressões

Parque Herăstrău

Conhecer uma cidade nova é como sentar em banco de praça, embaixo de sombra fresca, assistindo o jeito que o tempo e a gente passa.

É muito de observar, pouco de pré-julgar, num esforço de — tentar — entender.

Porque conhecer requer o tempo que uma passagem não oferece. Daí a diferença do que pensa quem passeia e do que pensa quem habita.

Vamos também lembrar que nem todas cidades se entregam, assim, facinhas, facinhas, como cantado pelos guias de viagem. Elas têm seus segredos. Bons e maus. Seus pequenos truques e grandes tesouros.

E pedem compromisso. Aí sim, ganhada a confiança, começam a se abrir, mostram-se e se amostram, estando você livre para se impressionar com as suas verdades.

Em três semanas, ainda na minha vida-de-faz-de-conta de hotel, vou colecionando pequenas impressões. São as primeiras. E são frágeis. Diria, ainda superficiais.

Mas, de Bucareste, já guardei o gosto da limonada fresca adoçada com mel de abelha. As minhas vêm sendo servidas em pátios abertos, com sol, gente bonita e som de pop rock acústico, cantado aos sussurros de um quase jazz.

Falando na gente, ela é simpática, do tipo que sorri de volta e escrutina de alto a baixo. Já vi mais sorrisos do que caras fechadas, com exceção dos taxistas, mas cara feia deve ser requisito para ganhar licença de táxi em qualquer lugar do mundo.

Ainda sobre a gente, as senhoras de mais idade, enquanto esperam transporte público, sempre carregam bouquets improvisados de flores, quase como se acessórios em complemento ao que usam fossem; notei, também, que essas mesmas pessoas velhinhas estão sempre passeando ou almoçando com o resto da família; deu a sensação de que não deixam seus idosos para trás; e, mudando a sensação, fiquei com a de que passo por local: dia sim, dia não, alguém para para me pedir informações incompreensíveis no meio da rua.

Outra coisa, amam cachorros. Sejam os livres, de “vida errante”, sejam os encoleirados, passeando com seus donos. Aonde quer que vá, Vitória é sempre atração, mas aqui, estranhos completos chegam ao ponto de agarrá-la pelos bigodes, beijando-a na boca do fucinho.

Quanto à cidade, ela é verde e cheia de parques. É bem humana. E convidativa: pede para sairmos de casa nos finais de semana, lotando suas avenidas e calçadas largas, rumando para os parques que crescem como floresta urbana.

Come-se bem, achando-se de um tudo de sofisticado do mundo. Da comida deles, provei o sarmale: rolinho de repolho cozido, recheado com carne picada; acompanha polenta, pimenta e algo branquinho, tipo sour cream. Gostei.

Para doces, seguem muito os franceses. Sempre boa ideia. E os pães, os pães que tenho encontrado merecem cada caloria ingerida.

Os jovens se vestem como o resto dos jovens do mundo, já os mais velhos, de 50 para cima, de uma forma mais antiquada, meio anos 1940, como se ainda não tivessem se dado conta de que o mundo para eles se abriu; talvez, tenham vivido aquela história por tempo demais e quando acabou, já era tarde para esquecer? Minhas especulações.

A arquitetura, longe da beleza preservada de uma Praga, conta, como de costume, um muito da história. No centro velho, construções à belle époque lembram os anos 1920/1930, quando a cidade, enriquecida pelo petróleo, era chamada de “Petit Paris”; mas veio a guerra e boa parte desses prédios foram destruídos; vieram os comunistas que substituiram o que restou dessa beleza bourgeoisie pela feiura dita funcional dos prédios caixões. Sobrou pouco, cuidou-se, menos ainda, mas o que se manteve em pé guarda a glória de tempos felizes.

Outra coisa. É por esse mesmo centro que a gente encontra cantinhos escondidos. São átrios, corredores, pátios internos que abrigam em prédios ou galerias, cafés e pequenos restaurantes sempre convidativos.

No mais, se a geografia confere a Istambul a preciosidade de estar entre ocidente e oriente, parece que o charme desse encontro a gente encontra nas construções daqui. Sobretudo nas antigas, numa mistura doce e de bom gosto entre os dois mundos, como no Palácio Mogosola, que misturou ao seu renascentismo algum perfume das mil e uma noites otomanas

Enfim, são essas. As primeiras. Apenas sopros do que colho pelas ruas, sentada em meu banco de praça, ainda quietinha e observando.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.