Mim, estrangeira

Sabe a sensação de elemento fora do seu conjunto: pertence ou não pertence? Não, não pertence. Pois bem, esse é o sentimento do “ser estrangeira”: por mais que queira bancar a cidadã camaleo do mundo, em algum momento, serei desmascarada.
Geralmente, o flagrante da minha estrangeirice se dá ao encarar demais as pessoas ou sorrir quando não é requerido; sem falar quando tasco logo dois beijinhos de primeira, num ser humano constrangido e congelado, que não entende o porquê da louca nunca antes vista, beijá-lo sem cerimônias. Fazer o que!? Tudo culpa dessa americanisse austral, informal e calorosa que me cerca e condiciona.
Também costumo ser descoberta nos atrapalhos iniciais de qualquer chegada. Em cada país novo, leva-se um tempo para descobrir como funcionam tomadas, bancos, médicos, produtos de limpeza, tickets de ônibus ou metrô — faz algo errado nesse quesito e você acaba deportada -; alem dos horários, das regras silenciosas que ninguém conta que existem ou das muito óbvias para os locais que, claro, você já deveria ter nascido sabendo; nao esquecendo da tragédia anunciada que pode ser uma simples ida à depilação ou à manicure, em terra que não é a sua.
Só para desenhar, aqui em Bucareste elas cortam a cutícula, mas cortam mesmo, com tesourinha de unha. Eu não sabia e quando me perguntaram se gostaria que limpassem a minha, respondi que “Sim!”; agora, imaginem o espanto da manicure quando sacou a tesourinha e, assoviando tranquila, fez menção de começar a cortar a lateral do meu dedo — porque é isso o que acontece, elas cortam a carne do seu dedo! A moça foi interrompida por um grito desesperado de “Pare!”, grito meu, claro; e fez cara de susto, coitada, cara de quem se pergunta de que hospício saiu a desequilibrada que não sabe que cutícula se corta com tesourinha!?
Difícil.
Mas, vamos ao que interessa: o fato é que, uma vez descoberta a sua identidade secreta, as perguntas começam, e é exatamente aqui que o elemento não pertencente vira objeto de curiosidade.
Lembro de quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos, há muitos anos. Fui parar numa cidadezinha adorável, com uma família mais adorável ainda, no interior de Massachussets. Um dia, uma amiga da minha mãe americana descobriu que ela tinha uma intercambista brasileira em casa. Contou que o filho, de 10 anos, participaria na escola de uma feira internacional em que cada grupo representaria um país. O dele, olha a coincidência, era o Brasil, e o pequeno gostaria muito de convidar a pessoa adolescente que eu era — com suas ocilações de humor e necessidades repentinas de se tornar invisível — para “ser exposta” em seu stand.
Lembro que tinha prova na escola no dia da feira e não pude comparecer. Que pena! Achei que tinha me livrado, mas, não. A professora, ao saber da existência de um espécime estrangeiro nas redondezas, achou que seria uma oportunidade única a de colocar as crianças em contato com ele. Insistiram tanto que, lá fui eu, numa manhã fria de primavera, falar sobre o que não tinha certeza, para o meu público infantil.
Sentei numa cadeirinha feita para gente de 10 anos de idade e me senti lisonjeada pelas crianças do grupo do Brasil, que usavam a camiseta da feira, com a bandeira do meu país. Aí, começaram as perguntas, a maioria encabeçada pela professora: e eu me senti um pouco como orangotangos devem se sentir, quando a gente os espia do lado de fora da grade do zoo (acho que foi a partir daí que comecei a tomar aversão por zoológicos).
Saí de la rindo, meio constrangida, meio debochando, meio intrigada. Não fazia ideia da quantidade de vezes em que me veria, exatamente, na mesma situação: observada tal qual orangotango, respondendo perguntas, tantas vezes feitas por adultos — como a professora… -, nível 10 anos de idade.
Mas, o tempo caleja, traqueja, ensina. Em terra estranha, vale sempre a máxima do observe, aprenda, repita. É assim que a gente se torna mais adaptável e menos sensível às mudanças. É assim, também, que a gente se mistura com mais facilidade, sabendo sempre que, jamais, seremos um deles. E que o meu atrapalho e a curiosidade dos outros farão sempre parte do ser estrangeira.
Dizem que, após muito tempo fora de seu país, você tem o sentimento de não pertencer a lugar nenhum. Discordo. Quanto mais me afasto, mais sinto que pertenço a um único lugar. Exatamente, àquele pedaço da praia do Pina, em frente ao número 770, da Av. Boa Viagem, em Recife. Lá, também estranham o meu sotaque. Lá, também questionam os meus modos. Muitos, inclusive, acham que, após 16 anos longe, não pertenço mais. Quer saber? Problema deles. Aquele lugar me pertence e dele, sou repleta. E é para lá que corro, comprando uma passagem ou sonhando acordada, sempre que canso de minha estrangeirice, porque, dito “bendito”, a gente tira a pessoa do mundo dela, mas, a gente não tira, nunca, esse mundo da pessoa.
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