O meu pai também não é o melhor do mundo

A minha ponte

O meu pai, tal qual a minha mãe, não é o melhor do mundo. E ele também não é herói, nem guerreiro; no caso, o meu pai está mais para general, de longas e epopeicas batalhas: muitas vitoriosas, outras nem tanto, todas narradas pela grandiosidade nata, quase caricata, dos personagens que se acreditam e fazem maiúsculos.

É que o meu pai, eu conto, ele é megalomaníaco. Insisto, ele realmente o é, literal e figurativamente. Do tipo que delira o inacreditável; o que todo mundo duvida: ele vai lá e faz. Um homem de feitos e também de entusiasmos, vez ou outra, grandes demais para as suas possibilidades, descumprindo promessas e suspendendo sonhos; mas, vamos deixá-lo assim, porque o meu pai general precisa sonhar.

Ele também é exagerado. De um exagero crônico, de gastos e comidas e bebidas e histórias e os cinco filhos pedem, “Pai, para, menos, por favor!”, menos muitas coisas, mas ele, hiperativo, continua, enchendo a casa com o exagero gostoso da sua presença generosa, gestos incontidos e gargalhada boa de ouvir; na verdade, a melhor que já ouvi.

E não tem papas na língua; nenhuma. Nem há registro de ter levado desaforo para casa; algum. Fala o que quer, no tom que deseja, para quem merece — ou não… — a escuta.

No mundo nosso de hoje em dia, binário e limitado pelos intelectuais de memes, meu pai é, certamente, um reacionário. Que o seja e assim permaneça: o reaça progressista que me dava asas para namorar as mais variadas ideias, fosse em política ou no resto todo, ensinando-me a respeitar e valorar a liberdade que eu e você temos de escolher e pensar o que quisermos.

Por isso, enquanto criança, ele era a minha ponte para o resto do mundo; uma ponte cheia de ternura, deixando passar a insegurança daqueles pequenos passos, enquanto olhava, curioso, no que a filhote de general se tornaria.

Não foi bem uma “generala”, — já que a minha insubordinação em receber ordens — quem sai aos seus não degenera… –, termina balanceada pela preguiça que tenho em mandar nos outros -, mas tem um muito do bom que ele me deu, como gostar de mamão com gérmen de trigo, aos 4 anos de idade; impinar pipa e montar pistas de ferrorama, aos 6; ler poesia escrita por adultos e para adultos, aos 9; voltar para casa com o sol raiado da minha primeira festa de carnaval, aos 14; experimentar whisky, aos 16…

Enquanto crescia, ele não foi tão presente quanto queria, mas ele sabia me olhar: meu pai me olhava, entendia, abria a porta e me dava a corda que eu precisava. Meu pai me permitia voar, adivinhando meus quereres, não os de mimo, esses também, mas, sobretudo, os outros maiores, aquelas vontades que nascem conosco e, quando realizadas, terminam por nos tornar quem somos; eu tive e tenho essa sorte: um pai que sempre soube ler as minhas entrelinhas, porque se não partilhamos as mesmas patentes nos campos de batalha, ocupamos o mesmíssimo lugar no terreno dos sonhos e é lá, na fortaleza adormecida do general sonhador, que a gente se encontra e se entende, em nossa afinada vontade de dominar o mundo; sempre foi assim, não é verdade, Pai?

Você nunca precisou ser o melhor. Você só precisa ser você.

Feliz dia dos pais.


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