Promessas

Lá vem a noiva

Final de primavera, promessa de verão. Faz calor e o verão promete ser quente, como anuncia a fila de ar-condicionados pendurados nas faixadas do Centro. Oi, mas não é um país frio? É, e bastante, só que o frio fica lá com o inverno. O verão promete 40 secos e intensos graus.

Final de primavera e as rosas prometidas em minha chegada explodem e desabrocham todas de uma vez, como se tivessem combinado dia e hora com o calor que as acordaria. São mares e mares perfumados, inundando canteiros, parques e rotatórias. Lembra do jardim da Rainha de Copas? Pois é, nele se transformou a cidade: e obedecendo à Rainha, foram todas pintadas em vermelho e nuances da cor.

Final de primavera, promessa de recomeço. Aos sábados, pela manhã, as igrejas se enchem. São batizados e casamentos celebrados e desfilados pelas ruas desse mesmo Centro, que já cumpriu o que me prometeu: dele eu gosto. Sentamos num pátio italiano. O antipasto e o vinho rosado prometem sabor. Na longa mesa ao lado, comemoram um batizado. Duas mesas mais para frente, também. Barulhentos e queridos, regam com vinho as boas risadas, passando os bebês de braço em braço. Bouquets de flores, fotos e alegria. Me convidem para o próximo!

Falando em convites, já recebemos os primeiros. Promessas de amizade em noites recheadas por uma mistura interessante de gente-que-tem-tudo-para-ser-como-a-gente. A gente agradece a delicadeza e espera: amigos se prometem; só o tempo para cumprí-los.

Não nego, as promessas são boas, mas, nem tudo são flores — mesmo em uma cidade inundada por rosas. Sinto promessa de confusão; e o desconforto de gente perdida em terra que não a sua.

O trânsito é caótico. Os motoristas, tão agressivos e mal educados quanto os nossos. Buzinam por tudo. Param ao lado e gesticulam. Eu jogo beijos — cínicos — ocupando a mão e distraindo o “maior de todos” — que gostaria mesmo era de jogar obcenidades — ops, falei… Como se não bastasse, estacionam nas calçadas, nas esquinas, nas faixas de pedestres. Por falta de opção e sem estacionamento por perto, você faz o mesmo. Na Romênia, como os romenos.

Preciso ir ao médico. Começa a novela do hospital em terra estrangeira — um artigo à parte, essa novela. Promessa cumprida de dor de cabeça. Falo numa língua que não é nem a minha, nem a deles, com quem nem sempre fala esse outro idioma tão bem. Sobra a frustração de se sentir mal compreendida, mal examinada, mal atendida.

Preciso ir ao dentista. Preciso com a urgência de um molar quebrado por pedra, em pão de café da manhã. Já sabendo que falta quem fale inglês no mundo de médicos e afins, recorro — com a língua segurando o dente — à página da embaixada dos EUA, que lista profissionias da saúde falantes em inglês, mas que escreve: “padrão de limpeza de acordo com níveis americanos”, e sinto arrepios, porque, desculpa, sou brasileira, logo, sou pobre, mas sou limpinha e tenho conhecimento de causa para afirmar que o meu padrão de limpeza é maior do que o deles. No kidding. Ao menos dei sorte, deu certo e agora tenho uma dentista vestida de rosa, igualzinha à Barbie, eficiente e faladora de inglês, que cuidou com destreza — e higiene — do meu molar partido. Eu, a criança com duas cáries, vim fazer meu primeiro canal na Romênia. Promessa cumprida.

Falando em língua, o ouvido começa a se abrir. Acostumou-se à entonação eslava desse falar latino e nele reconhece nuances de italiano, sobretudo de italiano, mas também de português, de francês e do pouquinho de espanhol que tenho na memória. Começo a entender frases inteiras. Mas não sei responder. Promessa de uma língua nova para aprender — e sobreviver no hospital!

Mas, a maior de todas as promessas veio mesmo durante a semana passada, ainda desolada, saindo do tal hospital. Vi minha primeira cigana rica, aqui na Romênia. Incrivelmente enfeitada, ela usava lenço e saião coloridos, carregados de brilhos e pedras. Faziam contraponto com uma camiseta basiquinha, de listras marinho e branco, sem esquecer da argolona na orelha. Pelos braços e dedos: ouro, ouro, muito ouro. Ela me olhou de volta — porque, claro, não consegui fingir que não a vi! — e sorrindo em — auto — aprovação, confirmou-me na sua magia telepática cigana: você bem sabe, é difícil chegar, mas não desanima não, o verão promete, promete coisa boa; promessa de cigana, sei das coisas, leio o futuro.

Peguei minha promessa pelo braço e pisquei de volta: agradecimento gestual cigano — sei de alguns códigos, já sou meio cigana também ;)

Enquanto isso, vem, verão, vem e cumpre sua promessa.