Diário de uma ex-jornalista: Na lista de prioridades — não desperdiçar a doçura

Escadaria do OCulto Bar, um dos belos momentos de alegria na companhia dos amigos / Foto: Cristina Livramento

Na minha lista de ser uma nova pessoa, está anotado ser uma mulher livre e independente. Isso implica em reinventar novos penteados, experimentar roupas diferentes e usar maquiagem colorida. É, eu sei, coisa de mulherzinha. A outra parte, quem resumiu bem foi um carioca, de 19 anos, que conheci outro dia: “Não vou desperdiçar minha doçura com qualquer uma”.

Desde então, não consigo parar de pensar nessa frase. O que significa não desperdiçar a doçura? É não se envolver, não se entregar? Ou será que tem a ver com aquele conselho dos nossos avós — a gente precisa primeiro conhecer a pessoa para depois namorar? Eu fico com a segunda opção.

Não é uma tarefa fácil ficar sozinha, principalmente se você gosta de namorar e de estar casada. Tem uma parte bem legal na solidão — se você tem autocrítica — que é a satisfação da própria companhia. É muito bom dormir de conchinha, andar de mãos dadas, viver a cumplicidade a dois, mas entre tanta gente confusa, sem dúvida, é melhor dormir abraçada ao travesseiro.

Descobri recentemente que, talvez, eu ame mais o desafio de resgatar uma pessoa do que viver o amor. Passo tempo sozinha o suficiente para pensar nessas coisas. Será que meus relacionamentos eram para durar toda a vida, como sempre sonhei desde os cinco anos? É interessante olhar para o passado e notar um padrão.

Uma das minhas descobertas, ao caminhar sozinha pela cidade, é a Expresso Black que acontece, toda segunda sexta do mês, na Esquina Democrática / Vídeo: Cristina Livramento

Da mesma maneira que me perguntam por que tenho necessidade de um relacionamento, eu questiono, por que vocês têm tanto medo de amar? O amor não é sofrimento. O amor não é cobrança. E para existir amor — e entenda-se que esse é um exercício diário de qualquer relação — é imprescindível o diálogo.

Não sei que tipo de sexo, de namoro, de casamento, alguém espera ter sem diálogo. Na verdade é mais complicado que isso. Quando duas pessoas conversam, seja verbal ou fisicamente, é fundamental que exista honestidade. Senão é outra coisa. A amiga te chama de “linda”, com o coração cheio de ódio e inveja. O companheiro diz “Eu te amo”, mas também pode ser só uma frase de efeito para adiar a solução de um problema por mais tempo ou para te fazer gozar mais rápido. Não é exagero, você sabe.

Já tinha percebido, há alguns anos, a questão do padrão dos meus relacionamentos. E quando você se dá conta, é uma longa e dolorosa caminhada de transformação. Como todo processo fisioterapêutico, com o tempo você reconhece que valeu a persistência. Não lamento o passado, nem tento depositá-lo no colo do presente. Guardo as boas lembranças, aprendo com os erros.

Na companhia dos amigos, quando se é permitido ser quem você realmente é / Foto: Cristina Livramento

Descobri, esses dias, uma novidade a meu respeito: não gosto de gente equilibrada. No primeiro momento, fiquei apavorada, agora não tenho muita certeza. Ainda não sei se é autoboicote ou, simplesmente, gosto de quem questiona, não se conforma com a realidade. Até aqui, acho as pessoas “equilibradas” um tanto conformadas e eu não sinto atração por gente conformada.

Não é o passado nem os relacionamentos que nos arrebentam. Somos nós que fazemos isso. Fazemos quando não damos tempo ao tempo, quando impomos nosso querer sobre o outro, quando usamos o outro como muleta ou quando nos colocamos como vítimas. Estamos aqui para aprender a sorrir, chorar, se relacionar, a conhecer o próprio corpo, o corpo do outro, tudo isso é um exercício diário do amor.

A doçura só é possível se você se permite olhar para dentro de si, sem mentiras, sem orgulho, sem ódio, sem mágoas. Se fôssemos conscientes da própria doçura, não precisaríamos de subterfúgios vulgares e superficiais. Não se envolver é opção, na maioria das vezes, de quem é covarde. Afinal, para viver o amor — sozinho ou a dois — é preciso internalizar que somos merecedores da felicidade.

Cristina Livramento pediu demissão do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul, em julho de 2015, e decidiu que era hora de se refazer como gente e profissional. Não tomou remédios, nem drogas para criar coragem, apenas deixou de pensar no passado e no futuro e passou a viver o agora. Para saber mais sobre essa jornada, acompanhe a coluna, comente e compartilhe. Mais: Instagram @cristinalivramento