Diário de uma ex-jornalista: Para dias de violência, pipoca

Centro Histórico de Porto Alegre, dezembro de 2012 / Foto: Cristina Livramento

O cobrador da linha Santana, em Porto Alegre, resumiu em uma frase como a sociedade, de uma ponta a outra, encara a violência: “A gente não pode fazer nada, né?” Me parece que estamos todos conformados em sermos espectadores e resolver nossas perdas e medos pedindo proteção a Deus. Somos zero em pragmática.

Antes de chegar a Porto Alegre, uma amiga havia sofrido uma tentativa de roubo, na Cidade Baixa, minha filha já havia presenciado um assalto, bem ao lado dela, também no mesmo bairro, a ex-sogra com a filha e o neto roubados na Zona Sul. Cheguei aqui sem me abalar, andando de cabeça erguida. “Acho que é como você se posiciona na cidade”, comentei um dia.

Até que, num sábado, dia 6 de maio, na companhia do ex-namorado, fomos roubados, também, na Cidade Baixa. Após quase um ano, um longe do outro, tomados por uma felicidade absurda, estacionamos em uma rua que jamais pararíamos se estivéssemos em estado de alerta. Resultado: assisti o jovem de moletom vermelho tirar o revólver e anunciar o roubo. Levaram o celular, a carteira, o Ford Ka (azul) NFB-2978 e nossa dignidade. O carro até agora não foi localizado.

O carro roubado e o fim do namoro: nos renovamos a partir dos restos / Foto: Cristina Livramento

Cada um tem uma fórmula mágica de se proteger, a bolsa na frente do corpo, usar o táxi e deixar o carro em casa ou colocar a carteira e o celular por debaixo da blusa. Comemoramos o fato de estarmos vivos e lamentamos, por um tempo, as perdas materiais. A vida segue, é preciso trabalhar, pagar o pão, as contas, pegar os filhos na escola como se nada tivesse acontecido.

Minha mãe e minha filha, em Campo Grande (MS), também agora fazem parte da estatística. Estavam indo para o centro, numa segunda-feira à tarde, quando um morador de rua, do nada, com as duas mãos passou a quebrar o para-brisas do carro. “Fiquei com o vidro há um palmo do meu rosto, filha, com farelos por todo meu corpo”, contou minha mãe por telefone. Todo mundo viu e ninguém fez nada, só depois que ele saiu correndo. Deram uma surra no cara.

Uma amiga, em São Paulo, numa quarta-feira, no início da tarde, foi arrastada pelos cabelos para fora do carro. Bateram nela e deram uns tiros que, por milagre, não a acertaram. Na mesma semana, ela deu uma festa para celebrar a vida. Cercou-se de amigos, de carinho, de boa música. Cada um escolhe como sobreviver às desgraças.

Centro Histórico, Porto Alegre, outubro 2012 / Foto: Cristina Livramento

“A polícia não tem como estar em todos os lugares”, me disse um tenente-coronel da Brigada Militar em uma conversa informal. Cristina Ranzolin, apresentadora da RBS, anunciou, em junho, a construção de novos presídios, “mas o problema é a burocracia”, comentou a repórter da matéria. Presídio não elimina a miséria, o desemprego e a disparidade econômico-social. Quem dera fosse uma questão burocrática.

Encontro um amigo e ele conta que em novembro de 2016, por volta das 19h, apanhou de um grupo de jovens, quase até a morte, quando saía da Redenção. Parque Farroupilha, nome oficial da praça em Porto Alegre, está sempre lotada aos fins de semana. “Um me pegou pelo cós da calça, em seguida uma guria me mordeu na cintura, outro me passou uma rasteira e, quando caí, já levei um chute na boca. Na hora senti os dentes soltos.” Ninguém impediu a surra. Tudo para levar a carteira e um celular.

Pergunto para o cobrador do Santana, em um domingo frio e ensolarado, o que aconteceu dentro do ônibus da linha do Belém Velho. “Entraram no ônibus e mataram um cara.” Comento que, após o roubo na Cidade Baixa, toda vez que vejo um tipo parecido com um dos três que levaram o carro, eu estremeço. “Nenhum deles era negro”, acrescento. “Aqui no bairro tem uma dupla de senhoras, por volta dos 60 anos, que sempre andam acompanhadas de uma grávida. Elas fazem um limpa nos ônibus. O que a gente pode fazer, né, eu trabalho nessa linha, só me resta assistir.”

Cristina Livramento pediu demissão do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul, em julho de 2015, e decidiu que era hora de se refazer como gente e profissional. Não tomou remédios, nem drogas para criar coragem, apenas deixou de pensar no passado e no futuro e passou a viver o agora. Para saber mais sobre essa jornada, acompanhe a coluna, comente e compartilhe. Mais: Instagram @cristinalivramento