Diário de uma ex-jornalista: Um emprego de verdade

Passei a manhã e a tarde dentro do Sine esperando chamarem minha senha de número 700 / Foto: Cristina Livramento

“Por que você não trabalha como jornalista?”, “Faz um concurso pra qualquer coisa!”, “Diarista?” “Você acha mesmo que é possível viver de arte?” São as principais indagações que tenho ouvido desde que cheguei a Porto Alegre. Por mais que você se proponha a trabalhar em outro setor, a armadilha é quase sempre a mesma. Resta a identidade e até isso querem te tirar, a qualquer preço.

Quando saí do bairro Chapéu do Sol, em maio, e me mudei para o bairro Santana, entrei em desespero e arregacei as mangas. Fui para uma entrevista em uma Pet shop onde a diária seria de R$ 80. Esperei a proprietária a manhã toda e ninguém apareceu. No mesmo dia fui a uma lanchonete na avenida Azenha, para uma vaga de atendente. “Você tem experiência em salão?”, perguntou o proprietário e eu disse “Não”. Sou péssima em mentir. Perdi a vaga, claro.

Mandei currículo para várias vagas do Sine que, um dia depois, descobriria que não é a mesma agência de empregos localizada no Centro Histórico, em Porto Alegre. Sete horas e meia de espera para ouvir que não há nada para jornalista nem fotógrafo. “Temos vaga para balconista no Zaffari, quer tentar?”, perguntou a funcionária. Não tentei. Fiquei com o encaminhamento na mão e pensando “Não me preparei durante um ano para me enfiar em um supermercado e ainda tirar a vaga de quem realmente precisa.”

Quando cheguei em casa, após o chá de cadeira no Sine, havia um e-mail com uma entrevista coletiva para o dia seguinte: “Vendas”. Não tenho a menor ideia de como me acharam, mas foi assim que entrei em uma imobiliária conhecida na cidade. Fiquei ali durante duas semanas. Um lugar onde gananciosos e aflitos se acotovelam, na hora do almoço, por dois micro-ondas e outros disfarçam a fome com bolacha de água e sal.

Após a entrevista coletiva, o selecionado preenche vários formulários sobre trabalho autônomo, recebe uma apostila com todo o Know-how da empresa e passa por um rápido treinamento. O corretor autônomo banca o transporte, a refeição, trabalha de segunda a sábado, deixa a digital toda vez que entra e sai da empresa, não pode se atrasar, nem ficar doente. Grana? Só quando fecha um contrato. “Aqui você tem que baixar a cabeça, não pode pensar, nem olhar para os lados. Faça o que eu te digo”, disse meu diretor. Saí sem olhar para trás.

Desde que cheguei a Porto Alegre não fiz uma fotografia, a máquina não saiu da bolsa. Comecei a ter labirintite de nervoso. “Minhas economias vão acabar”, era só nisso que pensava. Voltei a fumar e a chorar por nada. Quando consegui erguer a cabeça, agendei, para fim de julho, duas exposições e o lançamento do livro Campo Grande 1889, 6 baladas para forasteiros na livraria Baleia.

Livraria Baleia, na rua Santana, em Porto Alegre / Foto: Cristina Livramento

Dizem que viver de arte é utopia. Faço trabalhos como freelancer, procuro aniversários e eventos para fotografar, mas tudo é esporádico. Você está preparada e disposta, mas não sai do lugar. É o malabarismo da autoestima — você é um lixo x você é capaz. Sem uma grana fixa para alugar um quarto que, no centro, está entre R$ 450 (uma dispensa de empregada sem cama e sem armário) a R$ 1.000, você acaba por se sentir um pária. Alugar um imóvel? Nem pensar!

Após um mês, no Santana, fui para o bairro Rio Branco onde me propus a trabalhar como diarista. “Por que não volta para o jornalismo?”, questionam com frequência. “No jornal eu ganhava R$ 1.500 mensal. Como faxineira, se trabalhar três vezes por semana, faço R$ 1.800 e ainda tenho os outros dias livres para fazer fotografia e literatura.” Ninguém entende. Entre descolados e conservadores, o que dá status de gente é a carteira assinada, mesmo que ela te aniquile como ser humano.

Deveria ter feito tudo isso quando tinha 20 anos. Tenho 43 e não adianta lamentar. Tenho duas profissões e nenhuma delas viabiliza uma vida com dignidade. A resiliência em trabalhar como garçonete ou diarista (fiz duas faxinas) não tem qualquer valor. O que resta? Minha identidade, aquilo que crio. Não sei se é arte, mas é o que me mantém inteira. E isso, não vou admitir que ninguém tente sufocar.

Cristina Livramento pediu demissão do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul, em julho de 2015, e decidiu que era hora de se refazer como gente e profissional. Não tomou remédios, nem drogas para criar coragem, apenas deixou de pensar no passado e no futuro e passou a viver o agora. Para saber mais sobre essa jornada, acompanhe a coluna, comente e compartilhe. Mais: Instagram @cristinalivramento