Diário de uma ex-jornalista: Uma pousada para uma vida serena

Cristina Livramento
Aug 9, 2017 · 5 min read
Parte da exposição “Triste história das mulheres que não sabiam amar” entre o verde da pousada / Foto: Cristina Livramento

Ao fim de julho, resolvi tomar coragem e encarar o aluguel de um quarto. “Vou apostar todas as minhas fichas, economias e FGTS na minha paz de espírito” e assim encerrei a fase de morar com “amigos”. Há pouco mais de um mês, morando em uma pousada na zona sul de Porto Alegre, posso dizer que agora estou bem. Continuo sem qualquer garantia do amanhã, porém, em uma fase de paz e produtividade.

“Imagina o que vão pensar quando eu contar que abri minha casa pra ti e tu se recusou a cozinhar pro meu filho”, foi a frase que faltava para pôr fim a uma “amizade” que mal havia começado. Essa era minha terceira anfitriã. A estratégia era cativar o suficiente até que eu me tornasse, por livre e espontânea obrigação, estagiária e empregada doméstica. “Você é muito lenta, o povo gaúcho não gosta de gente lenta como tu.” E na minha lerdeza, juntei minhas malas e entrei num Uber.

Quanta energia desperdiçada! Aquela voz iluminada sussurra que tá tudo errado e a gente insiste. Na maioria das vezes não é paranoia. Fiquei em três residências, sempre como convidada. A única convivência produtiva foi com a minha ex-sogra. Apesar do profundo sofrimento, de estar no mesmo ambiente com o ex-namorado, nós duas choramos nossos lutos, fizemos confidências e nos alimentamos de lealdade. Naquele um mês, “Juntas somos mais fortes” realmente foi um lema para nós duas.

Dia 25 de julho, primeira vez, desde o roubo em maio, que tiro o celular da bolsa e fotografo a cidade / Foto: Cristina Livramento

Quando você entra na casa de um amigo, todos são obrigados a conviver com belezas e esquisitices de cada um. Você pode até conhecê-lo, mas ao colocar suas malas para o lado dentro, as novidades mais bizarras vem à tona. Da primeira morada, eu saí muito chateada porque vim até Porto Alegre para fotografar minha amiga e, assim que cheguei, percebi que não ia rolar. Foi muito frustrante. Saí o quanto antes para preservar a amizade. Cada um tem suas prioridades, eu fui atrás da minha.

Ao entrar na pousada, não tive dúvida que havia encontrado meu lugar. Wilson Cavalcanti já havia me falado dos quartos, em 2015, quando também morei em Porto Alegre. Com uma linda área verde, sob a administração de artistas, decidi ficar. Levei umas duas semanas, até meu corpo entender que podia relaxar. Percebi isso, quando acordei com uma porca dentro do quarto — era eu roncando. Ri sozinha.

Dali pra frente as coisas foram acontecendo. Fui convidada, pela curadora Ana Paula Monjeló, a integrar o grupo de artistas locais da exposição Ruínas a Céu Aberto, que aconteceu dia 8 de julho, na escadaria da rua Fernando Machado, no Centro Histórico. E, nas minhas mãos, a responsabilidade de escrever a biografia de um dos maiores mitos do país, o que ainda é segredo. E aquela energia ruim que me impedia de agir, dissipou-se. Voltei a fotografar.

Sob técnica de sublimação, uma das imagens da exposição Mosaicografia, que aconteceu no Largo Glênio Peres, em novembro de 2016, em Porto Alegre / Fotografia: Cristina Livramento

Na mesma época, ainda em julho, fui convidada pela estilista Vanessa Berg a participar da próxima edição do Colecionáveis. Duas fotografias minhas serão usadas na elaboração de sua nova coleção. Na ocasião, Vanessa me apresentou alguns trabalhos feitos em sublimação, uma técnica de impressão digital em poliéster. Cercar-se de pessoas que se ocupam do fazer, fechar toda e qualquer fresta de fofoca e lamentação resulta em fluidez. Isso dá um tesão danado, você se sente vivo.

Foto: Cristina Livramento

Ainda não fiz a exposição A triste história das mulheres que não sabiam amar, na livraria Baleia, não imprimi o livro Campo Grande 1889, 6 baladas para forasteiros, mas tenho uma série com quatro episódios de lambe-lambes para colar pela cidade. Fotografei também os 15 anos da Caroline, em Canoas, o que rendeu ótimas imagens e uma satisfação imensa. Se não estivesse aqui não teria participado desse momento tão importante para Carol e minha amiga, Francieli.

Você pode encontrar o seu exemplar na ArteLoja, na Casa de Cultura Mario Quintana / Foto: Cristina Livramento

O retorno do zine IdeiasBizarras, criado pela jornalista e designer Christina Castilho, também foi outra boa notícia. O zine, editado de 2001 a 2011, estava parado desde então. “não vou ter mais medo. vc me proporcionou isso”, ela me escreveu após ler o Diário de uma ex-jornalista. Duas semanas depois, recebi a correspondência com os vários exemplares da nova etapa do IdeiasBizarras, a edição #01 d.C. O ato do fazer é o que compõe a história, cria vínculos, transforma o entorno.

Oportunidades, paz, nota-se a diferença. Aqui também, na pousada, percebi que minha sensibilidade anda bem aguçada. Ou, por estar em paz, consigo entendê-la com mais clareza. Consigo delimitar espaços com serenidade — nas relações e no trabalho. O segredo está em parar de se agredir. Começo a achar que a felicidade está intrinsecamente relacionada a autoestima. Quando a gente se respeita só se permite a experiências produtivas. Como eu sei? Nelas, eu me sinto gente.

Cristina Livramento pediu demissão do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul, em julho de 2015, e decidiu que era hora de se refazer como gente e profissional. Não tomou remédios, nem drogas para criar coragem, apenas deixou de pensar no passado e no futuro e passou a viver o agora. Para saber mais sobre essa jornada, acompanhe a coluna, comente e compartilhe. Mais: Instagram @cristinalivramento

Cristina Livramento

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Uma jornalista desconfiada até da própria sombra.

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